Contos de primeiro de janeiro.


Isso mesmo, fui, vi e voltei. Vivo e operante. Segue um texto experimental da série de contos que espero finalizar  antes do fim das férias.
Ps: Bem experimental msm!




Aforismos do Big Bang

Mataram um menino.
(Ele tinha:
 barba de verdade,
 alguns sonhos quase seus,
 entendia meia dúzia de coisas sobre o mundo
 e
 tinha fé no amor de uma menina)

Sabe o composto formado por uma pitada de leucócitos, algumas medidas de hemácias, um pouco de plaquetas e preenchido com plasma? Sabe aquilo que alguns dizem que dão pelo emprego / time / país? Sabe aquela liquido vermelho? Lembra? Geralmente quentinho, alguns tem intolerância, outros adoram. Sabe?

Hoje eu vi um garoto morto e muito sangue escorrendo pelo bueiro.

Vestiu a roupa de super-homem e defendeu sua garota, (que nunca seria sua) talvez essa paixão noturna fosse embora junto com o álcool, assim que ele apertasse a descarga de seu banheiro, como sempre aconteceu, no entanto, como podemos saber se isso realmente aconteceria dessa vez?
Ele a ama, a amou, a amaria?

Axioma gerado pela observação: Amor eterno não dura mais que uma noite.
(Observação: Analisar mais dados, preciso refutar isto!)

Se eu o amava? Amo sim, grandes heróis, libertadores, presidentes do passado, descobridores, inventores, pessoas notáveis, de grandes atos, grandes histórias, grandes nomes desconhecidos por mim. Amo aqueles animais que nunca vi vivos, peixes, onças-pintadas, macaquinhos! Amo a todo e qualquer tipo de desenho que pintam naquele papel, neste papel. Amo sim! E quem não ama?
Não fui eu que o matei.

Esta angústia nasce da dificuldade em estabelecer uma relação de causalidade entre a morte de um garoto e a alimentação de uma família. Qual a relação entre o comercial de lançamento de um novo carro e o Chico bêbado batendo em sua mulher? De que forma o evento A: Rafael tem saudades da mãe que virou adubo, pode estar relacionado com o evento B: Lurdes não precisará limpar o vômito do banheiro esta manhã?

Drogas não matam, elas proporcionam um refugio. Por que fugimos?
Drogas não matam, elas aliviam. Por que somos tão pressionados?
Drogas não matam, elas alegram. Por que tanta tristeza?
Drogas não matam, elas dão lucro. Alguma pergunta mais meu senhor?

“A maior liberdade é não ter nada a perder”
(Fácil provar isso?)

Dona Lurdes chorou, um pouco. Rafael conseguiu dinheiro para se encontrar com sua heroína, de novo. Alguns policiais tiveram trabalho, não muito. Um caixão foi vendido, bem barato. Lágrimas rolaram com dificuldade dos olhos de um pai ausente, nem doeu. Um esguicho foi utilizado para higienizar aquela rua, sem dificuldades. Um homem apressado derrubou seu celular em uma calçada com uma mancha estranha, nem pensou. Uma grande estrela cuspiu luz na metade de uma grande bola de terra a girar mais de seiscentos quilômetros por hora, no vazio, enfim, um grande emaranhado de tecidos e órgãos, que se achava especial, deixou de existir, enquanto ser  consciente, e voltou a ser nada mais que um monte de coisinhas, bem pequenas.

Uma grande explosão, alguns bilhões de anos atrás, colocou uma engrenagem para rodar e desde então tudo tem rodado ininterruptamente.




Refrão

Mataram um menino.
(Ele tinha:
 barba de verdade,
 alguns sonhos quase seus,
 entendia meia dúzia de coisas sobre o mundo
 e
 tinha fé no amor de uma menina)





5 comments:

Thaísa said...

Gostei do texto. Acho que algumas partes não entendi muito bem... Eu queria fazer um comentário, claro, objetivo, pelo menos... mas ler esse conto desperta, mistura, lembra, sugere tantas luzes fortes os fracas de pensamento que não vou
conseguir essa clareza aqui.

Bjs
Thaísa

Rafael said...

Obrigado pelo comentário Thaísa, realmente sinto que alguns trechos não consegui deixar muito claros, estou tentando melhora-los.
Este texto é tipo um protótipo de uma idéia, que consiste basicamente em dar voz a todos os objetos, pessoas, pensamentos, tudo o que se relacionar a cena, em outras palavras,sugerir muitas coisas ao mesmo tempo,exatamente como você expressou!

Thiago said...

Acho que vi este menino, há algum tempo: Na tragédia de 11 se setembro, na invasão do Iraque, no terremoto do Haiti. Vi-o, ontem, hoje e amanhã. Há cada novo jornal que recolho pela manhã.
Este menino, devorado pela sangria humana - tolice que nos caminha ao derradeiro -, é o mesmo que nasceu para fazer parte de triste estatística que chamamos de vida.

Rafael said...

O_o
Thiago!
Seu comentário é melhor q o texto!
Como vc faz uma coisa dessas?
:>

Herley said...

Posso dizer que estou sem palavras?