Números 3

Salve traça!
É com prazer que posto Números Ed.3! Pois é, tudo que é ruim perdura mais do que deveria, já dizia o senso comum.
Nesta edição conto a história dos "13 Macacos", façam o Download.



 Download: Número_ed.3


Créditos desta edição:
Quadros de A piada Mortal, roteiro de Alan Moore e arte de Brian Bolland.
Trechos de Os Sertões, de Euclides da Cunha

Por sinal, apreciem aqui um trecho, deveras belo, na íntegra.


Higrômetros singulares

            Não a observamos através dos rigorismos dos processos clássicos, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros.
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colunas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado, uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão, e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho A coronha da mannlincher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixará-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia o turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absolto mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimes empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.
À entrada do acampamento, em Canudos, um deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a montada de um valente, o alferes Vanderlei; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro. Ao resvalar, porém, estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou, adiante, à meia encosta, entalado entre fraguedos . Ficou quase em pé, com as patas dianteiras frimes num ressalto da pedra...E ali estacou feito um animal fantástico, aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no último arremesso da carga paralisada, com todas as aparências de vida, sobretudo quando, ao passarem as rajadas ríspidas do nordeste, se lhe agitavam as crinas ondulantes...
Quando aquelas lufadas, caindo às ubitas, se compunham com as colunas ascendentes, em remoinhos turbilhonantes, à maneira de minúsculos ciclones, sentia-se, maior, a exsicação do ambiente adusto: cada partícula de areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em todos os sentidos, feito um foco calorífico, a surda combustão da terra.
Fora disto – nas longas calmarias, fenômenos ópticos bizzarros.
Do topo da Favela, se a prumo dardejava o sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampos, ao longe, não se distinguia o solo.
O olhar fascinado perturbava-se no desequilíbrio das camadas desigualmente aquecidas, parecendo varar através de um prisma desmedido e intáctil , e não distinguia a base das montanhas, com que suspensas. Então, ao norte da Canabrava, numa enorme expansão dos plainos perturbados, via-se um ondular estonteador; estranho palpitar de vagas longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que caísse e refrangesse e ressaltasse a luz esparsa em cintilações ofuscantes.


 Excerto de Os Sertões, de Euclides da Cunha.



5 comments:

Thayna said...

Gostei do trecho de os sertões, não conhecia ainda. Parabpens pelo texto!
bjks

Hugo_DEC said...

Texto pesado, denso e dificil Estou em dúvida se vc escreve bem ou enrola bem....rsrsrsrs
Não consegui estabelecer a relação entre os tres textos q vc utilizou.
O do coringa, o dos sertões e a hsitória dos macacos. Qual foi sua intenção ao aproximar coisas tão díspares?

Estante Velha said...

Hugo_DEC,
É complicado tentar explicar, mesmo o sentido q eu te disser não é o unico. Mas pensa assim:
O Coringa está falando do homem comum.
Euclides fala de uma "estátua", um homem morto que parece vivo devido as especificidades do clima do sertão. A morte iguala a todos, cada criatura que foi lutar no meio do sertão, será que eles sabiam o que faziam? Acreditavam no sentido de sua luta? E Conselheiro, tinha mesmo certeza que moestrava o único caminho certo?
São vários sentidos que convergem para algo que liga as três histórias, não sei se ajudei, mas tente ligar o que te disse a história dos macacos.
Um abraço e obrigado pelo comentário

Estante Velha said...

Thayna, Os Sertões, na minha opinião fecla é a obra mais "foda" escrita por um brasileiro até agora.
Leia! Caso sinta algum desconforto com a primeira parte, A terra, persista, vale a pena.
Um abraço e obrigado pelo cometário!

Thayna said...

Peguei o livro lá na biblioteca, e realmente está dificil!