Números 6 - A peregrinação

 Salve, traças,

Esta é a segunda parte da história do meu sexto fanzine Números (leia aqui as outras edições). Relendo-a para publicar aqui, percebo que talvez apresente um dos personagens mais desprezíveis que já criei. Enfim, leiam e opinem.  Outra coisa, por enquanto o título parece ser "Revelações por 200 reais", mas estou aceitando sugestões. Sei que o conto é longo, mas gosto de pensar que contém a menor quantidade de letras possível. 
Se você não leu a primeira parte, leia aqui




 
A peregrinação

 

IV

            Será que ela será aquilo tudo ao vivo? Fotos costumam enganar o mais atento observador. Mesmo o mais experiente pode cair no truque da perspectiva alta. Do foco no rosto, do apelo ao bundão / peitão que desvia a atenção do barrigão. Faria diferença? Em um sentido prático? Não. De todo modo, não lhe convinha imaginar que ela usasse de truques tão tolos. Ao menos não novamente. Ainda preciso entender a tentativa falha de manipulação. Por que ela não foi direto ao assunto? Talvez um apego desnecessário ao papel destinado às mulheres. Porra, veja bem, eu querendo que alguém seja mais direto. Eu, o senhor verborragia.  De qualquer forma, estou pagando para ver, não há retorno. – Isso, dentre outros pensamentos, era o que passava por sua cabeça quando disse ao motorista:

- Pode me deixar aqui mesmo. – Estava a um quarteirão de distância do bar onde marcara o encontro.  A ideia era ter tempo para caminhar, elaborar melhor algumas linhas de pensamento e de ação. Isso, é claro, também gerava o efeito colateral positivo de deixar a garrafa de vinho que bebera tomar seu corpo; calmamente.

- São 22 reais.

- Só? Esta noite está começando bem!

            - Tem trocado, não?

- Desculpa, só estou com isso.

           O olhar do motorista, mesmo pelo retrovisor, transmitia tanta raiva que assustaria o mais armado dos covardes.

- Pode ficar com o troco amigo, no momento só estou com notas de 200.

Silêncio.

Uma sirene soa distante.

Silêncio.

Uma nova música começa no rádio.

Tentando amenizar a tensão, afinal não tinha de continuar ouvindo o ruído do motor do táxi, soltou:

- Depois acertamos, sem problemas.

- O que você disse?

-  Pode ficar com o troco, na próxima você me dá desconto.

- Ficar com o seu dinheiro?

- Sim, descontamos em uma outra viagem, o que acha?

- Na próxima? Tá doidão? Tá me tirando? Não preciso de esmola de playboy. “Só estou com notas de duzentos”, sério? Deixar o troco...É cada um que me aparece. Vou arranjar o seu troco.

- Calma, foi só uma sugestão...

- Você vai ficar onde? Quer saber, não importa. Espera aqui. Vou trocar essa merda de dinheiro ali na loja de conveniência e já trago de volta.

- Ok, eu acho... Obrigado? – Mas quando o respondeu o sorriso mental era tão evidente que o lábio se contorceu em direção às orelhas. Involuntariamente, é claro.

Com certeza, voltará com o meu troco. E o sorriso veio fácil, novamente, aos lábios. Preciso me conter. De todo modo, tenho de tentar entender que, como um trabalhador sub-remunerado, é compreensível que um motorista se aproveite de pequenos estratagemas para complementar sua renda. Não há um fator pessoal nessa atitude. Impelido pelas condições sociais, o sujeito age de maneira a sobreviver em um ambiente que lhe é opressor. E ele está certo, é evidente para qualquer um que pense um pouco mais. Não? Só não vejo a necessidade de toda aquela atuação.

Enquanto o táxi se afastava, ele caminhou em direção à bela igreja de inspiração barroca que se avizinhava do ponto onde ocorreria o encontro. As torres, apontando o céu, mostravam a mais bela devoção humana: o apego ao intangível, a necessidade de narrar o mundo, explicando-o. O maior dos dons: criar a própria história. Riu do fato de ter usado o termo “dom”. Um erro bobo, mas algumas higienes são necessárias com relação ao uso da linguagem. Sim, nós nos criamos, uma vez que erigimos no solo de nossa mente o que  significa “ser”. Dar sentido à vida, eis a tarefa hercúlea que esta bela catedral representa! Sentia-se livre ao comungar em pensamentos com aqueles autores que tanto admirava. Existencialismo; em sua boca a palavra era um adjetivo.



Olhando para o céu, entretanto, esquecera-se do asfalto. Quando percebeu a mulher, já estava quase passando por ela. Sentada sobre os degraus da casa de adoração;  junto com o companheiro canino, aguardava o auxílio divino: a providência. Bem, hoje serei eu o servo de Teu Deus. Tais pensamentos lhe faziam cócegas mentais...tinha de segurar a gargalhada. Tirou, então, da carteira duas notas de duzentos e, abaixando-se, entregou-as com a alegria de quem participa da melhoria do tecido social.

 

V

Tinha um rosto a prova de qualquer vaidade. Herdara do pai o táxi e o contrato de aluguel do apartamento no Edom, bairro razoavelmente bem frequentado, lar da classe média que interpreta o paraíso com fantasias de excesso e riqueza. Apaixonado pela derrota, tinha no olhar dos fracassados a companhia para as noites rodando. Roubar de um playboy? Como se houvesse algo que ele tenha e eu não possa ter. Viu naqueles olhos condescendência, pena. De mim? Não...ele teria seu troco. Eu não sou como aqueles colegas de infância que filha-da-putearam à deriva pela vida, esbanjando sorrisos por fazerem dinheiro em cima de otários de nascença e criação. Felicitando um ao outro pela melhor maneira de ganhar um trocado arriscando a existência eterna. Alguns levavam a vida como um vício, outros como um hábito, mas eu compreendi: a existência é a chance concedida por Deus para nos mantermos limpos; uma provação, um desafio de força de vontade; uma maratona, não uma corrida com pódio de chegada e beijo de namorada . O livre-arbítrio é dádiva do “não”. Essa pequena palavra, mas tão grande característica, nos diferencia dos animais e daqueles que têm como “humano” apenas a nomenclatura, não a qualidade. Negar o pecado que nos circunda diariamente e, inabalável, caminhar pelo deserto, pelas brasas do prazer e da iniquidade rumo ao trono do altíssimo, eis o desafio da religião racional.

Não devolver o troco? É isso que ele espera de mim. Olha-me como superior somente por receber mais dinheiro mensalmente. Como se esperasse que pedido de desculpa por existir, por ser mobília em sua vida. Oras, só porque tem pai, mãe...tios e tias e tantos outros pontos de uma rede social que se espalha pelos corredores do poder da cidade. Uma vida que transcorre de “sim” em “sim”. Herdou um sobrenome que o antecede nas interações sociais, e, quando isso não ocorre, utiliza a carteira cheia de notas de duzentos reais como um sorriso simpático para o mundo: posso compartilhar isso com você, quer? Um pessoa que só compreende o “sim”, como poderia se aproximar de Deus?

- Não. Não! Ele terá o troco, eu não uso o linguajar da miséria, seu filha da puta.


VI    

        E por que você não socializa no próprio bar? Não é mais fácil arranjar alguém nesse ambiente? Muitas de suas amigas já perguntaram isso. Como se tivessem alguma sabedoria para compartilhar. Acham que, depois de terem se amarrado em um pau pelo resto da vida, têm as respostas para todo e qualquer relacionamento. Como se o objetivo de todas nós fosse ter uma foda garantida, depois uma criança para amar e cuidar e cuidar e cuidar, e depois uma pica meia bomba para sentar uma vez por mês; com sorte. Sim, amiga, estou esperando pela minha alma gêmea em um bar, em uma sexta de chuva no final do mês. Toda trabalhada no uísque, não se esqueça! E ao recordar-se do álcool que lhe toma as veias, ajeita a altura do vestido e a janela de visão oferecida por seu decote. Escolher o decote ideal é uma arte desprezada. Deve-se mostrar somente o suficiente para gerar o anseio. Não é muito. Enfim, elas nunca entenderiam, afinal nunca frequentaram esse ambiente o suficiente para saberem que o homem que está aqui não é o meu tipo. Meu prazer está em homens na puberdade dos sentimentos. Virgens da malandragem. Incrivelmente cientes da sorte que é estar com alguém como eu.



            Isso não é um “eu” versus “elas”, lembra-se a tempo de finalizar uma discussão consigo própria. Álcool: beba e ganhe gratuitamente um companheiro para monólogos existenciais – eis uma ótima propaganda! Feliz com suas pérolas, senta-se no boteco onde marcara o encontro. Chegou antes, pois necessita quebrar o estereótipo que criara de mulher certinha. É a hora de transformar o cérebro álcool alterado em um pântano de desejo e uísque cowboy.

            Sim, outros tentaram a sorte. O batom se esvaía na boca dos copos enquanto outros balançavam a cabeça, sorriam, pagavam drinques...Tudo para tentar uma aproximação. Obrigado, mas o objetivo é um só. Embora esses senhores a divertissem, não perderia uma noite com eles.

            Vira-o de longe. Vinha da direção da basílica de santo António Maria Gianelli. Caminhava lentamente e olhando ao redor. Ela gostou...estaria pensando no que dizer? Em como começar a conversa? Seria ela o vórtice dos pensamentos daquele completo estranho? Foi quando um cachorro grudou na perna dele com os dentes. Com chutes, ele afastou o animal. Com chutes, garantiu a permanência do bicho em estado de repouso; final. Uma senhora de rua foi então na direção do “boy da noite”. Por quê? Grita a velha, caindo no chão e tentando resgatar o animal da morte. Os chutes prosseguem. Parecem ter, à distância, um alvo duplo. Acertam e acertam. Fortes, decididos e bem sucedidos. O que não deveria ser uma bola; vira. O que não deveria explodir em vermelho; explode. Quem não deveria chorar; chora. Aquele que não deveria ir embora; vai? Vai para onde? Como assim? Ainda estou aqui. Aqui. Aqui, porra!


VII

Compartilhar com o próximo. Que piada de mal gosto. Como se fosse possível termos algo em comum para partilhar. Como se fosse possível ceder algo que interessasse a alguém cuja grande aspiração na vida é permanecer; ser mais um de tantos da espécie que se espalha desenfreadamente. Em que eu ajudaria algo como ela? Em que isso me seria proveitoso? Não preciso dela. Não? Não! Olhe para esse rascunho de pessoa: prostrada nas escadarias da igreja, fantasiada de mendiga, acompanhada por um cachorro que consegue feder mais que a dona. Não precisa de ajuda... Não quer aceitar meu dinheiro? Agora não posso nem fazer-lhe uma boa ação? Olha-me nos olhos e diz não precisar de minha ajuda? Desculpe-me, tomara que morra, velha. Você e seu animal. O surrei até a morte, sim. No entanto, fora ele quem primeiro me atacou. E eu pedi desculpa; ainda. Gostei do que fiz? Não. Tinha escolha? Não.  

A velha não aceitar minha ajuda fora, sem dúvida, a atitude mais estúpida daquela vida. No entanto, analisando com um pouco mais de frieza, ao menos ela assumira a posição de inferior com orgulho, mantendo assim a humanidade; ou melhor, ganhando assim humanidade. Há beleza nisso! Sim, mesmo esse projeto de gente teve a honradez de recusar as facilidades da vida na rua.

Tal qual o fio de Ariadne salvara a bela jovem da depravação provinda de um ser inferior, o minotauro, a atitude dessa velha revela um caminho. Não posso aceitar uma posição subserviente em todas minhas interações sociais. Mesmo ela, pode ensinar-me algo. É meu dever ensinar pelo exemplo, somente assim a evolução social será factível. Foi então que, tentando desculpar-se por ter matado o cão, foi afastado com gritos histéricos. Como esperado, ela não compreendeu. Por quê? Por quê? Oras, só há uma resposta e todos sabem, não? Porque eu posso, porque eu quis.

Estava decidido, tomaria uma atitude. Não posso permitir o caos total. Tome-se o exemplo do taxista. Se lhe perdoasse o roubo, o que seria de todos nós? Não era questão de se apegar ao troco como se precisasse. Nunca. Mas como poderia aceitar tal vagabundagem explícita? Seria contrariar todas as regras que baseiam o contrato social. Aquele homenzinho de merda lembrando-se de mim e sorrindo...Não! Feliz por se dar bem. Alegre por enganar mais um  playboy sem noção. Sei que ele pensou isso. Eu sei. Dá para acreditar? Como se não fosse por minha causa que ele sustenta seja lá a vidinha que tem: os filhos, a mulher permanentemente grávida, o pai e mãe doentes. Dá para aceitar isso não... Esse tipo de gente acha que tenho algum tipo de obrigação com eles. Têm de entender o valor da bondade! Perceber a virtude do doar, o desprendimento solidário de deliberadamente entregar aquilo de que não preciso para que tenham uma chance. Porra! Esse puto está estragando a minha noite! Não vou conseguir conversar com a gostosa pensando nessa afronta. A noite promete estranhas epifanias. – falava para os ares enquanto a sangria de um sorriso escorria por seu rosto deformado pela raiva.

Ou respondo à altura ou em breve não terei uma sociedade de que me orgulhar. Um local seguro onde possa dormir. Vão roubar tudo? Não enquanto eu puder impedir. Aquele motorista sabia que fazia algo errado, mas, oras, se ninguém fala nada, por que não continuar fazendo, não é? Sem crime, sem pecado. Por que não continuar ganhando, troco por troco? Roubando, noite após noite. Hoje não! Eis o livre arbítrio, a capacidade de dizer: “basta!”

Eufórico ele sinalizou para que um táxi parasse.

            - Por favor, siga aquele táxi.

            - Que táxi, senhor?

            Após um momento de dúvida inesperada, ele responde.

            - Pode seguir adiante, agora!

A loucura é areia movediça em noites como essa.

 

 

VIII

            Tentava entender...Sentada no local marcado ela o viu descer do táxi. Observou quando, pensativamente belo, contemplou os céus. Lá estava o alimento de hoje, caminhando em sua direção. Prestava homenagem com o olhar à bela igreja. Ela nem era católica, porém gostou de notar algo não superficial nele. Era grande coisa? Não. Mas em uma noite chuvosa como aquela, todos têm algo a oferecer. Começava a se preparar para recebê-lo com seu sorriso treinado quando o sujeito ajoelhou-se próximo a senhora abandonada à porta da igreja. Doava algo? Que belezinha, será que metia bem? Esses idealistas costumam ter medo de lambuzar a boca em uma boa boquete. E se tivesse nojo de suar? É uma hipótese. Não teve tempo de prosseguir os devaneios a respeito dos caminhos futuros e possíveis. Foi trazida de volta ao presente quando  os chutes raivosos dele lançavam o corpo do cachorro e da mendiga cada vez mais longe. Cada vez era mais dolorido de observar. Por quê? Era esse o mesmo homem com quem conversara no início da noite? Talvez estivesse se confundindo. Com certeza estava, afinal, aquele desconhecido acabara de pedir um táxi, ou seja, aquele merda não era o par escolhido.

         - Mais um uísque, por favor – pediu, já tranquila por ter conseguido controlar o desenrolar descontrolado de sua mente alcoolizada.

            Assim que o garçom lhe entregou o copo, sentiu um olhar distante pousando sobre si. De dentro de um táxi, ele a olhava. O semáforo o prendera por instantes frente a frente com ela. Não havia dúvida, era ele; partindo. Ainda teve a audácia de acenar e mandar-lhe um beijo.

            Mandou-lhe um beijo e foi-se com a liberação verde da sinaleira. Foi-se...

            Como assim? Quando o uísque chegou as suas mãos, encarou-o como quem vislumbra no leito de morte o pai ausente. Responda-me, por quê? E a resposta veio. Por caminhos tortuosos a verdade se revelou. Uma trilha indicada por copos vazios: a do impulso. Seu batom não mais se esvairia em repetidos copos. Nesse momento, seguir aquele olhar parecia o ato racional a ser tomado.  Como ousara...Ela, abandonada?

            Porra, olha o exagero. Pensa mais um pouco. Estava ali por si própria, sim. Gostava de fantasiar ser uma vampira, alimentando-se das emoções alheias. Ou melhor, da emoção: a esperança. Por que precisa daquele merdinha? Não precisa. Contudo, tudo isso não é certo. Havia contas a serem acertadas. Pela mendiga velha, pelo cachorro morto, acima de tudo, por mim.



           








Todas as imagens são de autoria de Lourenço Mutarelli e pertencem ao álbum Mundo pet
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