Felicidade, um filme B.


E repito:

É mulher? É bonita? Gostosa mesmo? Pois então, é ela!

E nunca foi você.

Nunca fomos NÓS.

Mulher bonita sempre arranja emprego e você sabe bem o que quero dizer com “sempre”, não? Mas enfim, baixe um pouco suas expectativas; é o melhor a se fazer. Olha, você pode ser um manequim disfarçado de vendedora em lojas de sapato/móveis/casa/imóveis ou uma secretária (mas, por Deus, chame-se auxiliar administrativa ou secretária executiva!), só não se esqueça que, de nada importa a profissão escolhida, a beleza continuará sendo um diferencial que nunca terás. É óbvio que ninguém fala isso. Talvez conscientemente até tentem se convencer que não levam em conta os aspectos físicos mais aparentes, mas não tem como escapar, a mais gostosa sempre é escolhida pelo seu “currículo”. Por que você não trabalha como vendedora de chip de celular? É mais fácil.

Veja bem, existem dois grupos na humanidade: os belos e os não. A beleza é relativa? Sim, é um padrão social situado no tempo, e, vamos lá: você é feia! Sabe aquele cara todo malhado para quem você perguntou onde era o departamento acadêmico de engenharia? Sim, aquele um que fingiu que não te escutou. Fosse bonita e ele tentaria puxar assunto enquanto te acompanhava até o local, pode ter certeza, e ainda tentava te convidar para uma cervejinha imaginando que com o álcool tivesse a chance de ter seu corpinho. Corpinho...Isso é natural e você sabe disso tão bem quanto eu. A única diferença entre nós e os outros animais é que criamos um sistema complexo que estipula os padrões de dominância, e, querida, quando você não os possui só lhe resta conviver com o desprezo. Sem dinheiro, sem beleza, sozinha, o que resta?

Ah, já sei! Vai encontrar seu gordinho e tentar se convencer a vida inteira que a aparência é secundária? Que o que importa é o “que se tem por dentro”? Tudo bem, assim você pode comer até chegar aos cem quilos e tirar disso o prazer de sua vida. Escolhas, escolhas. Isso tudo, é claro, enquanto deseja os corpos malhados dos galãs das novelas e admira a beleza “interior” do monte de carne ao seu lado apelidado de "amorzinho". Seria uma pena se ele não te fodesse há seis meses, não seria? Esse é o seu futuro, e ter comido aquele X-bacon no café da manhã não ajudou em nada.

Desculpe-me se fui muito dura, não faça essa cara. Lembre-se, o mal que te inflijo é a mesma dor que sinto. As vezes, ao pensar no passado, sinto-me triste, por mim; por nós. Éramos tão diferentes, você se esforçava. Tudo bem, eu entendo que mesmo se esforçando as coisas não eram as mil maravilhas, mesmo na magreza não éramos lá grande coisa. Mas convenhamos, relaxar tanto assim? Aquele passado, que quando presente nunca me agradou, é hoje um paraíso se comparado com esse inferno que vejo; que vivemos. Sim, vou te relembrar todos os dias, todos os momentos se possível, daquela criança gordinha, fofinha, cujos cabelos encaracolados ainda eram acariciados pelos ventos da esperança. Olhe-se e admita: estou certa!




      Ao terminar de passar o batom ela olhou uma vez mais para o espelho, de relance. Não agüentava mais escutar a si própria resmungar. Seu reflexo lhe causava náusea. Respirou fundo, olhou as horas e percebeu que estava atrasada; melhor assim. Apressada, pegou sua mochila, seu celular e as trufas que preparara noite passada.  Selecionou uma música qualquer que a entretivesse e partiu. Tinha muito que fazer hoje, entre o trabalho, a faculdade, as contas do mês e a mãe doente, ouvir um cara cantando o amor era o melhor que podia esperar do dia. Ao menos era isso que ela imaginava.

      Distraída ela caminhava, contava os intervalos entre os pisos da calçada, desviava de montes de merda de cachorro e camisinhas abandonadas. Na caminhada, de sua casa até o trabalho, só descolava os olhos do chão ao atravessar a rua. Foi quando, feito um chamado de outro mundo, escutou um assovio vindo do outro lado da rua. Era Mateus, colega de infância, hoje modelo de cuecas. Ele acenava em sua direção. Espantada olhou-o, sorriu. Há tempos eles se trombavam pelas ruas e ele sempre fingiu não reconhecê-la, mas isso era passado. Um grito! Um olá! 

    Foi quando, rápida como o lampejo de felicidade que tivera, passou por trás dela Chintya, a namorada de Mateus. Coincidência, era óbvio que ele não estaria falando com ela; a gorda, mas sim com sua namorada: burra; mas gostosa. Talvez “burra” fosse um exagero, talvez. Envergonhada de existir ali naquele momento, atrapalhando a vida das belas pessoas, abaixou a cabeça e saiu caminhando rápido para sair do caminho. Os desenhos geométricos da calçada a acolheram de volta sem reclamar. Sua realidade, sua segurança. Olhou no relógio, estava atrasada, em algum lugar era esperada, apertou o passo e atravessou a rua.



- Você soube da gordinha da logística?
 - Gordinha da logística?
- É, aquela que todo dia depois do almoço passava aqui no setor vendendo umas trufas.
- Não lembro não, por quê?
- Fiquei sabendo que morreu atropelada mês passado.
- Sério? Mês passado?
- Exatamente, sacanagem.
- Te juro, não lembro dela, mas bem que aceitava uma trufa.


[Gargalhada]


[Gargalhadas]


[GARGALHADAS]


[The End]









Crédito da imagem: James Jean.


2 comments:

Remy Zombie said...

Cruel...Não, acho que incisivo é a palavra certa. Atinge direto no nervo. Perfeito.
eu sei quando um texto é bom quando leio sem parar, sem me distrair e ainda fico querendo mais.
Parabéns, Rafael Martins. Cada vez melhor.

Estante Velha said...

Salve traça,

Nossa Remy, seu comentário é melhor que o texto!
Continue aparecendo. ;)

Um abraço