Ela

Salve traça,

Após um ano de proliferação silenciosa volto a trazer páginas amareladas recheadas com pensamentos empoeirados. Alimento envelhecido para a gula de traças desocupadas. 
Minha mão ainda tropeça ao tentar trazer estas letras ao papel, foi-se um ano de silêncio e para mim não está sendo fácil quebrá-lo.Meu objetivo é semana que vem escrever mais algumas linhas de baboseira e, no final, felicitar-me por postar por duas semanas seguidas. Veremos, mas por enquanto...

Bom apetite!






Ela 


Deitada, costas no mato e olhos na escuridão da noite, ela contemplava pequenas luzes pelo céu.  Lua, Via Láctea, Cruzeiro do Sul, nomes que para ela soavam como divindades modernas, inalcançáveis, passíveis somente ao toque da imaginação e da fé. Luzes a vagar pelo infinito, imagens de um tempo que se fora. Se esta frase não está em uma obra de ficção deve ser parte de algo religioso, transcendental. Luzes, seja no tempo ou no espaço, distantes. Memória constante da insignificância humana. Sobre tais corpos celestes, gastam-se números, criam-se palavras. Na matemática ou na ficção, aproxima-se o infinito na tentativa de torná-lo mais real, parte de nós, para, quem sabe assim, nos sentirmos parte do todo; acolhidos, não apenas grãos de areia estelar sonhando existir e crendo conhecer. Aqui, deitada sob o mesmo céu que milhões, ela pensava sobre tudo o que não havia necessidade de pensar. Penso e penso, invento, crio, desespero: e para que? Tudo se resume a solidão e abandono, acaso e caos? Ela pensava em demasia e nunca gostou disso.

Suas costas sentiam um leve toque de frieza provindo chão molhado pelo orvalho noturno. Seus olhos carregavam a mesma umidade que o gramado que a acolhia. Seus tímpanos, atentos, excitavam-se com o bater das asas de um besouro em seu vôo impossível; rotineiro. Tudo estava tão distante que não fazia diferença. Uma estrela, o Sol. Um satélite, a Lua. Um planeta, a Terra. Um hemisfério, um continente, um país, estado, bairro, rua, casa, número de registro geral, tipo sanguíneo, crença, amores, mágoas, tipo sanguíneo, localização no GPS, angústias. Que diferença faz isso tudo? Isso tudo sou eu? Quem sou eu? O que é uma consciência a se questionar em um mar de bilhões de outras que se sucederam no tempo? O que pode haver de belo e único em mim? E assim ela se perdia em pensamentos e acabava por se culpar, pois se achava, uma vez mais, perdendo tempo ao pensar. E ela não gostava disso. Deixa disso, não há nada...

E vinha o nada. Com a mão ela cobria a Lua, ocultava a pouca iluminação da noite de verão. Olhava-se na escuridão. Sentia e temia. E assim, ao tocar carinhoso do vento, pensava em sua pele. A pele, o que é isso? O maior órgão do corpo humano, parte da experiência de ser. Por ela eu sinto o caminhar da formiga em minha perna, o calor do outro, o beijo do metal frio das mesas de hospital. E quem faz isso tudo? Ela, eu?

Eu? Entre meus dedos uma pequena marca branca, um trecho de pele destoante, uma memória.  Uma comunidade de criaturas procria e vive aqui, nesse minúsculo vale entre meus dedos. Nessa idosa marca, cicatriz da longínqua infância. E esse mesmo luar ilumina seres que somente via imaginação consigo tocar. Tudo está tão distante e ao mesmo tempo tão próximo, do pó de estrelas que dizem que sou aos seres microscópios que me habitam. Tudo, igualmente inalcançável. Coisas e seres completamente aquém da minha percepção, mas ainda assim, o conhecimento que o mundo provém me diz: acredite.


Olho para céu, olho para mim. Fecho meus olhos, abro meus olhos. E não importa o que faça tudo o que posso fazer é acreditar? Estou presa a fragilidades que fogem ao toque de minha compreensão, por isso creio. Sento-me em descobertas e criações alheias. Sim, que eles pensem, quero viver; existir. E o pensamento se desenrolava em sua cabeça com a mesma fragilidade das crenças que ela dizia sustentar. Existir, viver, eu? Mas o que há em mim que seja meu, que seja eu? Ela nunca gostou de pensar, mas um silêncio profundo lhe dizia que isso era tudo de existência que poderia ter.

Eu seria isso? É pensar que me torna o que sou? Que me dá um “eu” para grudar a tudo o que digo? Necessidade lingüística, psicológica? É nesse momento, pensando, que sou singular? Um garoto na idade média, do outro lado do mundo, deitado nas areias da noite africana não poderia também ter pensado isso? Se eu posso pensar nele, vê-lo deitado se questionando sobre o que é existir, ele também poderia ter pensado em mim? Uma garota no futuro, a imaginar-lhe existência? Seria eu, nada mais que seu pensamento, tal qual ele é o meu? Ou talvez ainda de um terceiro, que somente agora surge? Quem é você, por que nos cria em sua mente? Talvez também busque respostas, sentido, existência. Ou então, assim como eu, principiara tentando encontrar leveza para navegar na maré do infinito e acabara por se ancorar em redemoinho.

Ela nunca gostou de pensar, mas era aqui, atravessando a insignificância aparente de seu corpo e de tudo que a rodeava que ela se criava. Um pensamento sem começo ou fim. Um fluxo constante de impressões fugazes e marcas profundo-superficiais a se recriar a cada instante; breves singularidades a explodir. Ela, mais um pensamento. Talvez seu, talvez da mente de um outro alguém. Talvezes a orbitar o espaço-tempo do agora infinito, no aqui indeterminável.

Ela.

Pensando.

Emerge.  






Créditos:
Desenhos 1 e 2, obras dos sketchbooks de James Jean. Disponíveis aqui
Imagem 3 - Autor desconhecido.




5 comments:

Danilo marqui de queiroz said...

Belo texto, poético e sensível.

Danilo said...

Belo texto, poético e sensível.

Lucimara Fernandes said...

Rafa, um dia me disseram que eu penso demais... Depois disso, várias vezes parei para pensar se quem me falou isso estava certo! Hoje, lendo o seu texto, eu tive a certeza de que eu estou certa. Ele estava errado...

Estante Velha said...

Obg pelo comentário Danilo.

Lu, qto a pensar demais ou não, sei lá, acho que em certos momentos acabamos não tendo muita escolha né?
Se tivesse um botãozinho seria perfeito. tipo assim:
"Agora quero pensar bastante nisso". "Agora chega, já estou ficando paranoico".
Na falta de escolha...seguimos pensando. :)

Wagner de Souza said...

Muito legal... as vezes somos acometidos por pensamentos longos e insistentes que abordam nossa mente, fazem com que se perca o sono, dão dores de cabeça, paranoias de poeira estrelar ou resto de cadáveres de estrelas... É FODA!