O beijo; flerte com o caos

O país onde nasci diz tão pouco sobre quem sou.
A cidade onde vivo diz tão pouco sobre o que sou.
A casa onde vivo diz tão pouco sobre mim.
O reflexo que crio no espelho não diz nada.
A imagem que visto, ela diz: sou alguém que se veste mal.
Quando tudo não passa de um desejo por uma completude inatingida, meus lábios dormem em confissões vomitadas no olho de seu furacão.

(A velha senhora, que se senta ao lado daquele jovem, enquanto o barco cruza o Atlântico, olha assustada para sua direita e pensa: De que ele esta falando?)

Quando toda a verdade do existir baila neste presente utopicamente real: algo como um beijo; o que pode dizer o ruído de meus passos sobre mim?
O futuro: incógnita de filósofo de bar. O presente: confissão de adolescente idoso. O passado: espinho real da valsa labial, tão ensaida, nunca dançada.

(A velha senhora, que se senta ao lado daquele jovem, enquanto o trem cruza São Paulo, incomodada com aquele falatório sem sentido, vira-se para observar a paisagem interna do trem, sem se esquecer, é claro, de aguçar sua audição para continuar a apreçiação daquele espetáculo repentino.)

Rios passam, vidas passam.
Pensamentos se repetem, palavras se repetem, pessoas se repetem.
O primeiro corte é o que mais dói, porém não é o mais profundo.
A ferida do pensar é a consciência da fronteira entre: o sonhar e o viver.
                                                                                               o querer e o ter.
                                                                                                             eu e... o além.



(A velha senhora, que se senta ao lado daquele jovem, enquanto o ônibus se arrasta pelo Vale do Paraíba, não se aguenta e fala maternalmente: Filho, o que aconteceu? Você precisa de ajuda?)

Calado ele pensa em voz alta:
Como explicar-lhe minha mãe, que entre faróis e planos que passam a 110km/h, minha mente se encontra presa a um algo(ser?) desconhecido? Acorrentado estou a um grande isto, que já passado, vale-me mais que qualquer futuro que há de ser.

(A velha senhora, que se senta ao lado daquele jovem, enquanto o avião aterrisa em uma grande cidade qualquer, olha-o nos olhos e fala-lhe sobre desejos e sonhos, amores e dores, o passado e a ausência. Lágrimas secas suicidam-se, uma após outra, daqueles olhos experientes e , tal como as palavras, desperdiçam-se na imensidão do oceano do presente. Ela fala sobre a ditadura da solidão e a escravatura da paixão. Diz que todos os navios buscam a segurança dos portos somente para zarparem livres novamente. Ela fala, fala, fala, até enfim perceber no branco dos olhos daquele jovem, o quão vazios são seus conselhos. Somente o silêncio será capaz de dizer algo para aquela vida.)

A carruagem para e o jovem desce, calado. Uma vez mais chega ao destino indesejado.

Brindemos!

Ao passado: o passado. Ao futuro: os planos. Ao presente: a ausência do presente, em outras palavras, voltemos à normalidade.



Créditos das fotos:
Foto 1: http://kaneda99.deviantart.com/art/kiss-15332431
Foto 2:http://zeenon.deviantart.com/art/Kiss-129980442

7 comments:

marry said...

Qual era o transporte mesmo?...

Rafael said...

O transporte que mais utilizamos para viajar...a mente :>

Marry said...
This comment has been removed by the author.
Marry said...

"Imaginei".

Thiago said...

"Très Bien!"
Quisera sê-lo - o jovem viajante - para assim tentar nesta incessante jornada chegar a "Destinazione Paradiso".
Teu texto lembrou-me esta bela canção gravada por Laura Pausini, em IO CANTO (2006):
Que pego o trem que vai à cidade-paraíso
Digo adeus a todos e subo ao trem
Quando sai, já não penso que
Uma viagem em um sentido
Tem sentido sem volta
Sem estações, nem confins
Somente horizontes, mas não tão longe
Eu sentarei em meu lugar
E você me olhando, ao meu lado falará:
Vamos com destino ao paraíso.

Randerson Lobato said...
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Randerson Lobato said...

Lendo este seu post fiquei recordando onde eu estava minutos atrás: eu estava caminhando a orla de Macapá, olhando o rio indo e vindo no chão de lama e o céu cheio de cores, uma mistura de roxo, rosa e amarelo.
Eu costumo chamar meu domingo de ócio, mas pensando bem, todo domingo eu paro para dar uma olhadinha no que a mãe natureza quer nos falar.
E por incrível que parece, eu e ela nos entendemos muito bem.
Queria mais tempo nessa lan house para ler os seus textos, mas o tempo passa rápido e o dinheiro é curto!
Prometo deixar um comentário sempre que eu ler!
Abraços!

P.S.: se tu encontrar, por acaso, com o Chico Buarque diz para ele que eu sonhei que a gente estava compondo uma música juntos.

:)