Coração aberto; olhos fechados



O álcool em seu sangue diminuía seu mundo, as paredes do bar pareciam a cada instante mais próximas de seu corpo. Seu olhar se fixava, sua mente desejava, sua imaginação vagava por cenas de prazer desconexas, sem pudor, naturais, pessoais. Ele a olhava, via sua vida, ali, ao alcance de alguns passos. Sua mão ansiosa acariciava a mesa de bar, sua boca, molhada previa o futuro que a aguardava. A conta crescia, doses e mais doses, junto com elas, cada vez mais, o rufar no peito, o arder na mão, o pulsar de cada músculo do corpo a antever a ação.
O olhar, fixo, se imaginava um artista, via sua obra-prima, a mais medíocre beleza que podia criar, as mais sinceras pinceladas que sonhava em dar, tudo o que se anseia, tudo o que não se quer. Descrições para o que ele via se fazem desnecessárias, palavras são incapazes de expressar o quadro que se formava na mente de Silva. Palavras refletem atos, portanto, podem descrever ele levantando, após horas a encarar uma mulher acompanhada, são capazes de transparecer o gosto do sangue que ele sentiu em sua boca assim que tomou o primeiro soco, a textura de terra que sua língua captou ao perceber que seus dentes haviam se quebrado, para isso, talvez eu possa me utilizar das palavras, no entanto, elas são por demais simplórias, frente ao vendaval de emoções que subiu do peito daquele homem ao vislumbrar a face de tristeza de sua Monalisa, ao vê-lo jogado ao chão.
A dor a algumas doses atrás havia se retirado da companhia de Silva, em virtude de sua ausência a coragem, a idiotice, quem sabe, a paixão resolveram fazer-lhe as honras de parceiras, bem acompanhado ou não, como saber? Ele se levanta, está perdido, não sabe onde está, não sabe porquê está, nada de anormal, sempre em toda sua vida sentira-se assim, logo, familiarizado era. Em pé, encara sabe-se lá quem de cabelos compridos, metido a pitbull, pose de fortão, músculos de musculoso, ele é o homem de sua Mona, ao menos acredita nisso. Provavelmente acha-se dono daquela garota, pobre coitado, doce decepção.
Uma única coisa pode-se afirmar de Silva, ele conhece as pessoas, olhares, gestos, o tom da voz, o ritmo da respiração, tudo se unia e formava uma figura nua aos olhos daquele homem que, neste instante, se via em meio a uma pequena confusão, temporária. Ele sabia, e como é precioso o saber, deter o conhecimento, entender. Pode haver algo melhor que isso? Desde o primeiro momento que Mona o olhou, de canto, tremendo, ele foi capaz de perceber. Veio o segundo olhar, um pouco mais penetrante, muito mais revelador; no terceiro olhar cruzaram os olhos, no quarto se amavam, no quinto Silva estava louco, sabia o que aconteceria, até o fim da noite ela seria sua, ambos desejavam isso. Bem...Pelo tamanho do “ex “ de Mona ele também previu uma certa dor, uma boa dose de contato físico, nada que não fosse capaz de suportar, nada que o fizesse morto, logo, valia a pena!
Em pé, nos pulmões um ar pesado, nos olhos uma decisão, mãos cerradas, corpo pequeno, 1,72 de altura, sessenta e cinco quilos, pouquíssima força nos punhos, uma decisão na cabeça. Silva encara o corpo bem desenvolvido de seu adversário, sim ele é mais forte, mas não é mais homem, pois um homem, não é um acúmulo desnecessário de músculos no corpo e um atrofiamento do cérebro, um homem se faz com ações, e Silva...era homem.Bem este era seu pensamento no instante em que levou o segundo soco, este, no estômago, este, tão dolorido que até mesmo o intestino viu-se obrigado a manifestar sua insatisfação.
Uma infinidade de segundos se perdeu, um montante infimamente pequeno de minutos se passou para o homem, um incontável de ódio se condensou no inferno que se tornou o pensar de Silva. Por míseros minutos o homem sorriu, por um século Silva odiou ao mundo e a si mesmo por sua incapacidade em realizar seus desejos, por sua debilidade em ser, porque sua mente era tão distante da realidade, porque o Silva que se via no espelho não era o mesmo Silva que se refletia nos olhos ao seu redor?
Um relance, um rápido olhar perdido para a esquerda, uma garrafa, ele a pega, a quebra, levanta-se, uma vez mais, no momento exato para ver uma garrafa se quebrar na cabeça do homem, para observar o sangue daquela careca desprezível ir ao chão juntamente com os cacos de vidro, para sorrir ao ver aquele exemplar de monstruosidade jogado. Silva olha para sua mão, a garrafa ainda está ali, o que aconteceu? Não importa, o homem está ao chão e ele está em pé, e a garrafa, bem a garrafa não esta mais em sua mão, o sangue, goteja, o sorriso é prazeroso, a realidade é real. O prazer de acertar um homem no chão é o mesmo de acertar um homem em pé, conclui, porém quem deu a primeira garrafada?
Um puxão responde a pergunta que não fora proferida. Charles, seu amigo, “o amigo”, uma frase:
- Venha logo, estamos sozinhos...preciso sempre te salvar? Você precisa sempre ser tão você?
Silva só percebe que está sendo arrastado por Charles a alguns metros do corpo ainda ao chão do homem, ele só nota que para trás esta ficando seu maior amor inventado da noite ao estar distante do bar. Um debater, um movimento rápido, ele corre, tropeça, cai, chega frente a ela. Ainda mais bela, ainda mais perfeita, ainda mais ela. Ao alcance maculado de suas mãos, ao raio pérfido de suas palavras, no perímetro do calor de seu coração. Ela é sua, ela é Mona, ela sabe disso, e ele sabe disso, toma-a pelas mãos, leva-a consigo, correm, desconhecem, correm, saem, fogem; juntos.
A noite é fria fora do bar, as luzes da desconhecida cidade gigante parecem entreter Charles enquanto Silva caminha ao lado de Mona. Eles se falam, eles se olham, eles se...Nada tem valor, nunca teve, o passado se funde ao presente, que por sua vez devora o futuro, assim como sempre devia ser, da maneira como nunca fora. São tão iguais, são reflexos em um espelho quebrado, são irmãos, velhos amigos, paixões esquecidas, são Silva e Mona.
A noite é longa, tão curta como a brasa de um velho tronco, tão quente como o pólo solitário de nosso planeta, tão extrema quanto nossa existência, na noite criou-se o mundo, nas noites criam-se as vidas, naquela noite criou-se um elo, tão frágil quanto nós, tão forte quanto nós. Mona e Silva foram um, ou não, deitaram-se, abraçaram-se, beijaram-se, oblíquos como estas palavras, comungaram como santos, multiplicaram os, ditos, pecados, adormeceram, como anjos, felizes como não deveriam, jamais, serem. Indefinível foram àqueles momentos, incompreensíveis, mesmo a eles. Juntos, como Silva sempre soube, como Mona sempre soube, como o mundo nunca quis.
E assim foi, a vontade do mundo sempre prevalece, nossa insignificância sempre se destaca. Amanheceu, e juntamente com o Sol veio a realidade sem disfarces alcoólicos, sem retoques surreais, sem felicidade barata. Sozinho, machucado, triste pela perda, feliz pelo sonho, assim foi o despertar de Silva. Levantou-se, estava no apartamento velho que haviam conseguido alugar por um final de semana, ele e Charles. Ao seu lado um cheiro agradável de noite feliz, em sua boca, além da dor, um doce perfume de beijo azedo. Mona sumira, de sua realidade, mas não de sua cabeça, nada que Silva já não houvesse previsto, nada que ele não odiasse. Ele pega seu velho caderno de anotações, pega sua caneta, e na medida de si mesmo, fotografa aquele momento:
Cheiro a ti,
Cheiro ao que não tive,
Cheiro ao que desejei;
Cheiro ao que , feliz, não tive.
Cheiro ao que sou, ao que fomos,
Cheio ao arrependimento, que me dói.
Cheiro ao que, agora, infeliz, não tive.
Cheiro ao que não existiu
Cheiro ao mais real sonho.
Cheiro a mim
Cheiro a ti
Cheiro a tudo,
Ao vinho que cobicei
A taça que não bebi
A vida que escolhi
A noite que se foi
A realidade que me abraça
Cheiro...
Sou assim, a tudo sinto,
Existem tantos cheiros
Porque, justo eu, os sinto tanto?
Porque me é permitido?
Assim...
Cheiro, a mim
E o fedor me perturba,
Frente a tantas fragrâncias divinas.
Cheiro,
Fedo!
Fedo?
Ele lê, não entende, joga no lixo, abre uma cerveja guardada na velha geladeira, corre, vasculha a lixeira, pega o papel, dobra, carinhosamente, acaricia-o, guarda-o. Por um segundo estava a ser como o resto. Jogando fora o incompreensível, temendo o desconhecido, isolando o estranho. Não! Silva não era como o resto, nunca fora, e agora também não seria.
A cerveja flui áspera por sua garganta, a ressaca rugi em seu estômago, um novo soco chacoalha o seu mundo:
- Realizei meu desejo! Desde ontem só penso em te socar! Em bater em seu rosto até que você sinta muita dor.Me diz, por que a mulher do gigante? Por que eu entro nestas brigas por você, quando você não tem a mínima razão? Por que você é meu amigo, como odeio ter esta resposta! Mas até quando vai ser tão falso consigo mesmo? A cada noite uma nova paixão, a cada manhã uma nova decepção? Encare os fatos, um dia vamos nos foder. E vale a pena? Veja, olhe ao seu lado, está sozinho, da mesma maneira que esteve ontem, e antes, e antes. Deslize a mão por seu rosto, senti a dor, valeu?
Um grito arranhado, um gemido contido, uma gota mais de sangue derramado, mais uma manhã.
- Desculpe-me, mas preciso fazer isso, um soco só não seria o suficiente para sanar a minha ânsia, apaziguar a raiva que sinto por sempre me meter em tretas por você. O ódio que me rasga ao vê-lo cometer sempre o mesmo erro. Noites novas, pessoas novas, histórias iguais, enxergue, está na sua cara, até quando? Até quando conseguiremos correr, fugir, até quando
Foram estas as palavras de Charles, o melhor amigo de Silva, fora este o fim, fora esta a última declaração, o ultimo sussurro gritado ao pé do ouvido, assim finalizou sua participação no mundo: sincero, tristemente, real!
Silva sempre conseguiu prever as ações das pessoas, por meio de pequenos gestos ele era capaz de traçar um perfil, provido de padrões de reações definidos a influências do meio, resumindo, ele sabia o que você ia fazer. Isto sempre lhe trouxe uma certa confiança, um pouco de segurança, porém ele nunca preveria que o homem da Mona o seguiria até seu apartamento, que o homem o esperaria, o aguardaria, com uma arma em mãos, vingança no coração, impunidade na mente, amigos no carro com o motor ligado no outro lado da rua. Silva nunca conseguiria prever a cara de pânico de Charles ao ver o amigo baleado no peito, mesmo tendo ele sido atingido antes, na barriga. Silva nunca preveria estas mortes, nunca preveria Charles se arrastando em sua direção, abraçando, em prantos, beijando-o. Silva nunca preveria, pois nunca olhou, nunca prestou atenção ao amor que por tantas vezes o salvou. Este foi o fim, simples. Charles e Silva, este foi mais um fim, que como todos os outros que antes vieram, e depois se seguiram, da tristeza e da alegria sempre compartilharão.

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