Natural mente


Salve traça!
Um conto mal feito, sem mais!




Natural mente
ou
Benevolência e orgulho -  a publicadade mendigada.


 

Prólogo. 

O problema precisava de uma linguagem precisa, assim o resolveríamos. Joguei notas na mesa, enchi dois copos de vodka e encarei aquela figura oleosa, gorda, passada: Ivan. Virei o que seria um gole do liquido sobre as notas. Não brindamos. Ligeiras, as mãos gordas de Ivan se lançaram para o papel; o dinheiro. Meus olhos comandaram: não se apresse. Acendi um cigarro e lancei o fósforo em chama nas notas. Era, o que gostava de dizer, linguagem precisa: queimar um pouco de meus trinta e cinco anos de obediência. Estou certo e me basto, e havia um grande ponto final em minha afirmação. Ponto gordo e nojento, sinônimo de certeza intelectualóide que desencadeou os eventos da noite. Embevecidos no mais fantasioso clima Clube da Luta zarpamos: à madrugada e além!

No círculo social – Quando o vômito falou.
           
            Vínhamos da bebedeira. Afogados no asfalto, caminhamos até o círculo de pessoas. Não mais que dez pessoas se reuniam. Alguns eu conhecia dos “boa noite” cordialmente cuspidos, por alguns outros mantinha uma certa admiração (a prova da luz do dia, é claro), não mais que dois eu sabia o nome e me aprazia da companhia; vez ou outra. Ivan não conhecia ninguém, mas guardava roupas idealizadas para fantasiar aquelas figuras, vestes de intelectuais, propícias para noites como essas.
            Feitos os rituais de boas vindas, começamos novamente nossos mergulhos no álcool e no presente. A conversa seguia, bambeando nos limites da linguagem ofídica dos falantes. Tais literatos, cujas línguas eram talhadas no ofício da imprecisão, o bem dizer que não diz, desfilavam o som de suas idéias na apoteose do ego. Não se deixem enganar, eu me incluo entre eles, caçava falhas na argumentação alheia e as explorava feito garimpeiro viciado no jogo do desconhecido. Na meia noite, bailávamos todos na cidade das idéias, pé pós pé, das vielas indignas do moribundos analfabetos, pobre povo, às avenidas opulentas dos teatros políticos da capital distante.
            É quando um som levou meus olhos a Ivan. Em sua camisa, pingos de gordura revelavam uma certa farra com a comida, na barba vestígios do que fora para o estômago. O soluço ritmava o abrir e fechar de sua boca, quando de repente, o esbugalhar veloz de seus olhos indicou: vômito. E bem no meio do círculo; social.
            Silêncio. Engoli. Oras, nada mais natural, ninguém deve criticá-lo, gritei em pensamento. Alguns segundos de dúvida foram traídos por risadas esparsas. Estava feito, um pouco de vômito no chão do mundo, ninguém o criticaria.
            Respiravam todos, naturalmente, pela boca, pois o cheiro acre era onipresente. Porém, uma voz se rebelou quanto ao vômito.
            - Isso que acontece quando gente sem responsabilidade bebe...Você é um bandido, onde já se viu comer e beber desse jeito. Tava na cara que ia dar nisso, vomitou, oras que estômago agüentaria? Mas, aqui, quem não precisa agüentar sou eu! – disse o velho professor Silas, alterado.
            - Claro, – parti em defesa – olhem para esta barriga fantasiada de gente – disse, alterado, apontando para a barriga de meu grande amigo - todos viram como ele bebia e comia, Ivan é assim, isso é o natural dele. Segurar o vômito faz mal, deve-se, realmente, soltá-lo. Você está certo Ivan.
            Ivan ouvia a discussão, ainda com um cordão de vômito na boca, atônito, distante. A visão do gordo bêbado e inconseqüente, que vomitara, bandidando a noite de todos, assim como dissera o professor Silas, começava a ganhar adeptos na roda. Eu precisava fazer algo se ainda quisesse salvar a noite.
            - Professor Silas, sabe que o respeito e o admiro, mas você ataca de forma baixa Ivan, mas veja bem, nunca ninguém verbalizou o desconforto causado por sua flatulência gritante! Oras, peidar, assim como vomitar, são rotinas dentro da normalidade, são coisas naturais. Seu comentário foi ofensivo, de uma baixeza que não combina com seu alto nível de intelectual humanista.
            Silas, com um olhar profundo, pegou sua carteira e em linguagem precisa se despediu, jogando dez reais na mesa. – Se fui baixo, desculpem-me, mas bêbado vomitando eu não aturo.
            E assim, sepultou-se a noite. Não passou muito tempo para que todos, cordialmente, inventassem algo e partissem. Eu, de certa forma, sentia-me feliz, vencedor, provara meu ponto. No entanto, o tempo, como sempre, pôs a prova a “naturalidade” do vômito.

No círculo social – Quando o catarro calou.

            Ivan, no dia seguinte, ao saber que tinha sido o personagem principal da noite passada, ria sozinho, confiante em seu papel de protagonista. Passa-se uma semana, e uma vez mais a roda se forma. A exceção de professor Silas, todos presentes. É quando um ruidoso trovão surge, prenúncio do raio, branquíssimo, que saindo da boca de Ivan aderiu ao chão, exatamente no meio do pequeno círculo em que nos organizávamos.
            Meia dúzia de palavras congestionavam minha garganta e minha cabeça. A ânsia veio inesperada ao observar o imenso catarro, criação, natural, de Ivan. Desta vez o silêncio foi soberano, ninguém falou, pois foram calados por meus argumentos noites atrás. Senti falta do professor Silas. Engoli meus pensamentos de outrora a seco, natural...Meus olhos procuraram Ivan, estava alto, confiante, certo da aceitação de seu ato. A visão daquele gigante convidava meu almoço a tomar o ar da cidade, minhas bochechas encheram-se de um gosto azedo. Fechei meus olhos, e com um esforço heróico, engoli aquilo que queria sair. Eu não vomitaria no meio de todos, naturalmente.

         



Crédito da imagem: Painel pertencente ao álbum Eu te amo Lucimar, de Lourenço Mutarelli.
Você pode fazer o Download de Transubstanciação, de Lourenço Mutarelli, aqui. 




2 comments:

Anonymous said...

mANO, NA boa, até tentei, mas não consegui ler até o final!

Estante Velha said...

Valeu pela tentativa!