Profanação


Salve traça! 
Aproxima-se uma encruzilhada em minha vida e, se tudo correr de acordo com meus planos, em breve seguirei a meta de um post por semana, não que este fato melhore a qualidade deste estante abandonada por natureza, mas...



                         Profanação



Gira a chave, ergue o som, pisa forte. A vibração do motor veste o carro todo, sentado ele sente a potência que finge estar sob seu controle, não há o que fazer além de cruzar as ruas do bairro da elite financeira da cidade com a violência de um grito; sem pavor. Se Deus fosse uma máquina, certamente seria uma F-40, um clássico inegável, assim como a bíblia, tal qual Sade.
Tenho amigos que dizem ter travado contato com o demônio, extraterrestres, anjos e espíritos diversos, no entanto, a F-40... - Distraído em seus pensamentos ele perde o ponto da curva, sobe a calçada, bate em um portão, tem a impressão de  atropelar alguém ou talvez seja só o efeito da adrenalina produzida sem controle, a emoção da blasfêmia, o desafio aos deuses.
Pensa na infância, nos sermões que lhe vetavam a utilização do corpo de cristo, nos anos perdidos na dualidade entre interior "seu", e corpo "emprestado". Muito tempo passou até que percebesse que o padre falava somente de masturbação, já era um homenzinho crescido, e isso quer dizer: tarde demais, logo, cresceu temendo o próprio corpo. Escapista, tinha em seus desenhos a fuga. Representava o santo corpo com chifres, membros disformes, olhos a mais; profanava a imagem e isso era pecado, bem sabia, no entanto, a mudez do sacerdote, sobre este assunto especifico, proporcionava-lhe a serenidade de prosseguir sem ser atormentado por promessas de futuras torturas infernais. Assim, na infância; velhos anos, a ânsia pela profanação já se manifestava.
Adulto, possesso de outros deuses, desafia-os também, por costume ou indiferença, mantém na consciência a ausência das penúrias futuras, aos pecadores reservadas. Não que faltem sacerdotes e sermões, rodeia-nos a certeza da queda, caso a crença falhe, porém a música que ele escuta é alta, sem tempo para ameaças acelera nas largas ruas dos bairros nobres. Inebriado no êxtase da razão nosso motorista visa campos elíseos além da monotonia cinza dos sonhos cotidianamente reprisados nos telejornais. 

Sobe o som, uma mão no volante e a outra na alavanca do câmbio, imaginando-se representação made in projac de ladrão de carros, ele ri. No centro da cidade, vislumbra nos olhos miseráveis o reflexo do relâmpago vermelho. Semblantes misto de desejo e medo retratam a imposição do poder divino ao exercer sua violência sobre a vida rotineira: a Ferrari.
Em um posto de gasolina, jovens se reúnem no frenesi alcoólico em busca de diversão, ou quem sabe, redenção? Uma memória levanta-se: onde mais de um se reunir em meu nome estarei presente; deus vai onde a fé está, algo assim. Freia bruscamente, atinge um garoto, ao invés de desculpas lança a chave do carro para o corpo caído – Olha a Ferrari para mim, já volto. Onde havia sorrisos e verborragia agora reina o silêncio, a emergência do sobrenatural em alguns casos gera a catatonia. Na loja de conveniência ele pega tantas garrafas de vodka quanto pode carregar. Ao pagar percebe que esqueceu o cartão na Ferrari, abraçando as bebidas sai para pegar; quem desconfiaria de tal pessoa? Para aqueles que o contemplam distribui algumas garrafas, o sangue de cristo, as restantes joga no banco da Ferrari, retoma a chave e sai acelerando. Euforia e excitação, todos se sentem renovados ao ouvir novamente o canto angelical do motor. Mesmo a atendente, que terá que pagar o valor das garrafas de seu salário, sorri. Palavra do senhor, o milagre do divino transcende a alcunhada racionalidade das palavras, permanece somente o gesto de adoração, o coração arrítmico, os sorrisos, um coro deles.
Com a atenção dividida entre abrir as garrafas e dirigir na maior velocidade possível ele prossegue, corta por meio do mar de carros injetando vida na velocidade estagnada do vai e vem contínuo nas artérias da cidade. Os bancos de couro da Ferrari são ungidos com água benta russa, um devido mergulho no sacramento. Não seria exagero apontar o pecado da gula, no caso por salvação, ao qual estes acentos se submetem ao banharem-se de tal desregrada maneira.
Ao longe, nos limites do horizonte, um elevado se anuncia sobre a pista, a terra prometida. Uma olhada no velocímetro indica 180 quilômetros por hora, a medida da liberdade. Lúcido, nosso motorista não pretende se sacrificar, diminui o suficiente para o cavalo de pau não ser fatal. É a hora! Próximo ao elevado ele executa a manobra, o carro gira e a adrenalina dispara, frente e trás, direita e esquerda, os lados dançam ao som dos pneus gritantes, o odor de borracha queimada traz consigo um sorriso de quem mesmo tendo mordido a língua no derradeiro momento desfruta satisfação. No entanto o tempo é curto e o gozo deve ser adiado. Zonzo ele corre em meio a frenagens inesperadas executas por motoristas assustados com o objeto sacro que irrompeu no meio da avenida.
No alto do elevado que cruza a estrada, cujo fluxo de veículos está impedido pela Ferrari, ele se senta para observar o culto indignado que se ensaia abaixo. Do alto, ele ouve as sirenes dos anjos da ordem se aproximarem. Contemplando o caos ele rasga um pedaço de sua camiseta, banha o tecido em vodka e coloca feito um pavio dentro da garrafa, improvisando assim um tosco Molotov. Do alto, ele aguarda o suficiente para que a racionalidade transcenda para irracionalidade, não demora para que o caos se instale. Calmamente ele acende um cigarro, encara o fogo, lembra-se dos inquisidores que conheceu via livros de história, mas a sua chama não provém da indústria da crença, não é a sarça ardente do deserto, é tecnologia e natureza. Leva o cigarro a boca e traga profundamente o veneno de seu tempo, para então acender o pavio. Do alto, ele lança a garrafa dentro da Ferrari e o que era chama é agora fogueira. Fogo; ponte entre o sacro e o profano. Da esfera do divino a Ferrari é lançada de volta ao alcance do tangível: profanada. Não há devoção perante um carro queimado, metal retorcido tal qual quaisquer outros veículos.
Não é necessário muito esforço para despistar os policiais engordados pela rotina. Com cabelos longos e enrolados, roupas rasgadas e corpo sujo é fácil adentrar a comunidade de vagabundos que se amontoa embaixo da ponte em meio a sombras e ratos.  Oferece alguns cigarros e compartilha a imundície e invisibilidade daqueles que à margem desfrutam de camarote da demente celebração, ou melhor, profanação.



Créditos: Ranxerox: Stefano Tamburini, (roteiro e arte), Alain Chabat (roteiro) e Tanino Liberatore (arte).

8 comments:

Jully said...

Bom post, gostei do texto;
bjks

Romeu_poeta said...

seNTi algo de sombrio em seu texto, agride, oprime, mas depois percebi que talavez não seja o texto que me agredia...algo além, do qual o texto foi apenas o catalizador.
Dá uma olha lá no meu blog, tem um post q vc vai se interesssar.

Estante Velha said...

Obrigado pelos comentários traças!
Romeu, uma das intenções foi agredir mesmo, fico feliz que vc tenha sentido isso. Acredito que no rumo que estamos caminhando enquanto civilização nao é dos mais Humanos.
Como nossa sensibilidade, devido a diversos aspectos sociao economicos,esta cada vez ais calcificada. Como cadavez mais fechamos os olhos e rezamos por lágrimas, talvez esta "agressão" possa nos fazer tomar uma atitude mais concreta.
Um abraço.

Romeu_poeta said...

concordo com sua opinião...
O capitalismo exige ua "guerra de classes" e o mundo se torna preto e branco, inimigos e amigos, tensão constante, perda de sensibilidade humana.

Anonymous said...

Vc um dia vai entrar em um cinema matando todo mundo
certesa disso!

Estante Velha said...

Já estou até programando do dia de meu atentado Sr Anônimo...

Jully said...

Eh Rafa tem gente se assustando com voce

Estante Velha said...

Só assusto quem não me conhece JULLY,qualquer um, ao me ver, perde o medo. Ao menos é o que eu acho.