A carreta da Morte - Parte I


Quatro anos atrás, o primeiro post da Estante Velha comentava a copa do mundo de 2006. Hoje, final da copa de 2010, escrevo com felicidade por ver que, mesmo que pouco, evoluí ao longo destes quatro anos. Espero ainda estar aqui em 2014. Espero que gostem da primeira parte da Carreta da morte.


 Carniceiro



"" A literatura emana das trevas do abismo entre as palavras e os significados."



Que a vida não é apenas preto e branco já me convenci. Os vilões esperavam na esquina e fingiam ter uma arma. Os vilões passavam em seus carros importados em ternos de cinco mil reais e fingiam felicidade.Os vilões acordavam cedo, todas as manhãs, olhavam-se sonolentos no espelho e saíam atrasados para fabricar o lixo das ruas. Os vilões separavam a grande massa de existências em categorias: heróis e vilões. Esta manhã, no beco, havia um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado. Eu sorri.
            A única certeza de qualquer crime é a minha culpa. Ajoelhado rezo por um álibi, permaneço assim o tempo suficiente para sorrir. A imaginação não poderia inventar tantas diversas contrariedades quantas as há no coração de cada um. Luto nesta guerra somente para deixar todos meus companheiros para trás. Que a bala a mim destinada venha por fim às lágrimas que um dia hão de rolar. Espero não sorrir.
           


            Assim escrevia em seu diário, sentado no teto da velha Kombi 69. O clima noturno e a iluminação contribuíam para a angústia, sem falar na solidão, gerar aquelas letras dramáticas no diário do Diabo.Cupido e Morte dormiam abraçadas, logo abaixo, no interior do automóvel. O Cavaleiro saíra horas atrás em busca de gasolina. Não muito distante dali, O Anjo e o Imperador acorriam a algumas necessidades do corpo.
            Sozinho, o Diabo refazia em sua mente os últimos meses desde o inicio da guerra. Tudo parecia mais evidente agora, e ele gostava disso. Uma vez que todas suas ações podem ser as ultimas, uma vez que cada dia se mostra como o derradeiro, tudo parece, enfim, tomar cores de realidade: Não há mais a necessidade de máscaras. Sem segurança e responsabilidade, sem planos de vida, sem Madalena, sem sexo...aqueles lábios...
            Um ruído vindo do beco o desperta rapidamente de seu momento de aparente distração. Sem hesitar ele pega a pistola, ao lado do caderno, e em um movimento rápido dispara. Um tiro.
Com um pulo, o Diabo se desloca do alto do veículo para o lado de sua vítima. Lamenta-se pela falta de precisão. Mirou a cabeça, mas acertara o pescoço. O cachorro ainda estava vivo, emitia estranhos sons. Morte, já acordada, abria a porta da Kombi com uma faca de cozinha em mãos.
            - Só um cachorro? Você gastou uma bala com um carniceiro? – Dizia  irritada.
            - Não gosto de animais que se alimentam de restos.
            - Cale-se. - disse a Morte enquanto dava um fim no sofrimento do cachorro – Onde está o Anjo? Aquele canalha deveria ser o vigia desta noite.
            - Deve estar brincando com a coroa do Imperador em algum beco escuro aqui por perto.
            - Se dependesse de mim esta pistola não estaria com você. É bom de mira, e daí? A bala que você usou para matar este cachorro pode nos faltar quando formos atacados por um bando de carniceiros.
            - Como se existisse algo além de carniceiros...este cachorro se alimenta de restos, tal como nós. – o sorriso no rosto do jovem Diabo era inevitável.
            - Cala a boca!  Vamos, me ajuda a levá-lo para dentro. Amanhã ao menos teremos carne para comer.
            - Sempre temos carne para comer.
            - Será que tudo tem de ser uma piada para você?
            - Sempre foi uma piada, você que demorou a entender.
           
           
           

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