Frente e verso

Salve traça,

   Hoje posto um conto que foi apreciado por algumas traças do "mundo real". Este conto foi um dos finalistas do Mapa Cultural Paulista 2013-2014. Segundo os organizadores, uma Antologia seria publicada com os contos e poesias finalistas. Como esta antologia foi prometida para o início do ano de 2015 e até agora nada, vou postar por aqui mesmo.Traça por traça, vocês são as minhas favoritas. ;)







Frente

Era uma vez é coisa de criança velha, solitária e de mente ociosa. Daquele tipinho de pessoa que planta flores em estufa e espera por borboletas. Daqueles sujeitos que percorrem as ruas carregando quilos de amor indigesto, cuspindo em todos, orgulhosos de seu romantismo de mamãe. Fabinho, formado em Letras, escritor de pérolas pós-modernas, poesia visual e tudo mais, além de fessor da molecada do fundamental, é dessas pessoas. Pegou o ônibus hoje só para fazer sua parte, essa coisa de evitar o aquecimento global sabe? Sem falar, que ele, escritor, tem de conhecer essa figura peculiar: o povo. Não vou dizer que ele está arrependido, sabe como é? Esta gente se manipula muito bem; come carne de soja e fala que é delicioso.
          Parado, dentro do ônibus a caminho da escola, o professor-escritor filosofa assistindo uma peladinha infantil na chuva. Os moleques parecem colocar a vida em campo, Fabinho vê nisso a fibra brasileira. Um deles, que estranhamente é bem branquinho, se destaca. Vê-se que é fonte de inveja constante, brinca com a bola, entenda: faz todos os outros meninos de bobos. É chapéu em um, vão de perna em outro, drible da vaca, e lá está o pivetinho, de cara com o gol. O craque em miniatura estaca frente ao goleiro, o gol não é seu objetivo, quer fazer de besta a molecada. Eis que recebe um pontapé, cai e chora, ou não, a chuva esconde as lágrimas. Um pouco de bagunça e estão reorganizados, hora do pênalti. Fabinho acompanha atento, empolgado com a história do menino, torce para que ele perca o pênalti, a habilidade, a vontade de jogar, que fuja da maldição do crack. Futebol não dá futuro, é uma ilusão hereditária propagada nas favelas só para enterrar de vez a vida dos meninos, eis a conclusão, já velha, do fessor. Fabinho imagina um conto:
Após perder um pênalti, o garoto que era visto por todos como um futuro profissional, desiste da potencial carreira de jogador e se torna cientista, descobre a cura da AIDS, ou não, algo mais simples talvez. Poderia inscrever esse conto em algum concurso, e se ganhasse, enfim, o descobririam, valorizariam seu trabalho...Sim, poderia dar voz aos necessitados, coisa social, sabe? Ajudar esse país tão carente. Mas sem papel para dar concretude a ideia, o esquecimento é certo. Mas agora não, apenas torce, o garoto precisa errar, isso seria uma profecia para ambos.
            O ônibus parte, liberaram a via, não há mais corpos, sangue ou metal de carro-do-ano retorcido, apenas o asfalto, abarrotado de pneus e impaciências enlatadas. Fabinho não viu a conclusão do lance da pelada, mas tinha a história, ao menos até esquecê-la, na cervejinha de sexta; prazer merecido de trabalhador, não? Fato estranho, que também serviu de lenha para o motorzinho criativo de Fabinho, foi a garota que estava no ponto de ônibus, protegida da chuva por uma sombrinha amarela, toda molhada. Ela lhe deu tchau...Quem seria está garota? Qual a razão deste gesto? Será que foi para ele mesmo? Esta história se perde rápido. O poste caído na avenida, vestígio do acidente, é autoritário; demanda atenção.




Verso

           Maria Estefânia, a menina do ponto de ônibus, é do mesmo tipinho que Fabinho, tem como o inferno a falta de guarda-chuva em dia nublado. Pertence a nova classe média, peculiarmente calada e só. Vive em seu apartamento, pago com muito suor, acompanhada do fedor de uma família de gatos sobreviventes ao cinza da dona. Ela é dessas pessoas que colorem a vida com giz de cera e comem algodão doce com culpa canibal. Nome de novela mexicana e coração de autoajuda esta é Maria Estefânia, que agora fantasia a praia ensolarada, ao pôr do sol, na qual se casa com um belo jovem que viu no ônibus. Mas ele se fora. O destino é ingrato e cruel...Não! A culpa é minha, pensa, deveria ter entrado no ônibus, ter tido coragem, declarado meu amor à primeira vista.
            Há algo em comum entre estas duas pessoinhas: Fabinho e Maria Estefânia: ambas nutrem o solo infértil de suas vidas com sonhos em palavras. Porém, a mesma palavra que os une os separa: a de Fabinho busca a poeira da biblioteca, mas mesmo nesse ambiente esquecido é necessário etiqueta, logo, ele a traveste de social, a perfuma com suor do povo. Por outro lado, a palavra de Maria Estefânia quer ser e-moção, mas sem movimento. Vê na leitura solitária das entranhas do que somos, não os anseios mal digeridos, mas as sementes de um algo qualquer, que é a beleza de que são feitos os alimentos da traça, as páginas dos livros.
          Em uma noite, em um lugar não distante daqui, Maria Estefânia, com dor no coração, abandonou seus gatos com a síndica, recém divorciada e quarentona, para buscar amor. A esperança venceu o medo, tal qual na propaganda. Partiu para desbravar o desconhecido, mergulhando num mar agitado por correntes de paixão; oceano em copos de cerveja. Sim, a investida noturna tinha ares épicos. Maria Estefânia, maruja sem experiência, não tardou em sentir soçobrar o estômago. Ao seu lado, um tritão, para tirar água da metáfora, lhe ofertava o canto, ou melhor, o braço, para evitar a queda da beudinha trôpega. Era ele, o belo rapaz do ônibus. É o destino! Esta é sua chance de ser feliz, seu príncipe encantado viera salvá-la. 
Pergunto-me: será que Maria Estêfania se lembra desta noite?
Viveram felizes para sempre é coisa de criança velha, solitária e de mente ociosa, feito estes dois aí. Mas eles não são gente como a gente, dão linha demais para a pipa, ficam presos no vento longínquo de outros ares. Não são práticos como nós. Não cresceram, essa é a verdade. Têm mais é que se foder, pois a vida ensina; se não for por amor é na dor, não é? Essa gentinha você reconhece fácil, é livro dando movimento aos olhos e imaginação empurrando a vida. Ah, nós não somos assim, pois esse tipinho de pessoa, que vive em contos de fada, quando você reflete um pouco, se torna o que mais admiram: baboseira romanceada. Não sei de você, mas eu não sou assim; definitivamente. Não me interessa o fim desses dois, o único fim que me interessa é o do mês; nada mais















Crédito:Imagens de um caderno antigo postadas no Facebook por Lourenço Mutarelli. 

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