Último suspiro do ego


Salve traça.
            Fim de férias! E para a devida apreciação de vosso paladar, um breve texto amarelado, banhado em poeira. Apetitoso?


Último suspiro do ego


Não vou me desculpar.

O cenário é belo, infantil e saudoso. Domingo de sol mergulhado em amanhecer povoado por esperanças. Olhos fechados; tempos infantis saltam à mente, a descrição não é difícil, mas fazê-la dói. A imaginação, espaçosa, machuca-me com movimentos desastrados. Um latido, um pequeno rabo balançando, uma corrida inconseqüente no quintal. Felicidade se conjuga no passado: eu era feliz. O doutor, ou melhor, médico; veterinário, disse que ele estava velho. Que por enquanto não sentia dores, mas as sentiria em breve, em demasia. Sem me olhar cuspia palavras facilmente. - Não sentirá dor alguma, procedimento simples, limpo, duas injeções: uma para dormir, uma para morrer. Sim, morrer dormindo...Com que sonhariam os cachorros?

Feito despertador, o cheiro do café quente me acordava, era o abraço que papai nunca me dera; bom dia sincero. Por dezessete anos acordei com o café e o pão quente me aguardando na mesa da cozinha. Nosso pai nunca disse que me amava, não com palavras. Não consigo dizer seu nome, doeria demais, com esforço solto: cachorro, é o máximo. Enfim, não passava de um animal, certo? Eu lhe dedicava amor, que em termos práticos se resumia a prover água e ração. Carinho? Vez ou outra, quando a insistência balançante do rabo vencia meu tédio, ganhava um afago. Eu o amava.

Foi tudo lento. Sinal após sinal, ignorados não por não os ter percebido, apenas fingia que inexistiam. Todas manhãs após nosso pai utilizar o banheiro, ele borrifava grande quantidade de purificador de ar no ambiente. Sua urina, devido a forte medicação e ao estado avançado da doença, fedia.  Eu, resguardado no silêncio que cultivávamos com carinho, não me incomodava com aquele cheiro de morte  penetrando no amanhecer familiar.

No frio vinha se enroscar comigo. Ficava na beira da cama, olhando-me, enquanto não autorizasse a subida ficava ali, tremendo. Cachorro pequeno, magro, mesmo embaixo da coberta, se enroscava em meu corpo em busca de calor. Hoje o frio é todo meu.

Cento e cinqüenta reais? É meio caro, mas vale a pena, disse o doutor. Sim, não queria vê-lo sofrer, e analisando retrospectivamente, o preço que paguei pela vida de nosso pai fora bem maior.

Definhar, o urologista não usou esta palavra, era desnecessário. Hemodiálise era o tratamento indicado. Ganha-se tempo, mas e quanto à vida? As dores seriam companheiras matinais, disse o doutor. Quanto a isso eu sabia, o silêncio seria a única medicação receitada. Definhar, a palavra estava no ar: a vida se esvaindo, pingo a pingo, banhando lentamente o solo, preparando o caminho para a comunhão anunciada, à esquina. Nosso pai, diminuto atrás da pilha de setenta e nove calendários que era sua vida, parecia uma criança, fingia não compreender o diagnóstico; quisera eu dissimular tão bem. Não que ele não tivesse amado, rido, e todo o resto chamado vida. Tivera filhos, uma casa, um carro, uma mulher, enfim o pacote completo. Fora feliz? Teria se questionado no silêncio nupcial? Teria algum dia tido a sensação de se encontrar perdido, abandonado em uma fila rumo ao abismo? O que teria pensando ao receber a notícia de que você nascera minha irmã? Alguns domingos são ensolarados, noutros há tempestade, os piores repetem o cinza diário.

Você me questionou certa vez, olhando como se contemplasse um animal dentro de uma jaula, você entende o que fez? Eu não, mas e você, entende o que tem feito?

Definhar? Não suporto o cantar ansioso dos vermes. Enterrei meu cachorro. O veterinário, experiente aos vinte e bem poucos anos, estava certo. Procedimento limpo e silencioso. O cachorro parecia dormir, porém nunca acordaria. Com nosso pai foi mais complicado, embora também tenha morrido dormindo. Dei ao velho um fim digno. Gosto de fantasiar que ele sabia, afinal nossos olhos sempre conversaram aquém ao silêncio de nossas personalidades. Antes de tomar a xícara derradeira de café, envenenada, olhou-me longamente, sereno, superficialmente saudável, olhos despidos dos véus da esperança. Nunca lhe levara café antes. Ele, discreto, não indagou a estranheza do gesto. Agradeceu-me e desejou boa noite, era a despedida. Não respondi. Que tenha sonhado a vida eterna.

O olhar de meu cachorro carregava tristeza, ao contrário do de nosso pai. Talvez não compreendesse algo que para nós, apoiados na racionalidade, é evidente. Antes morrer sem dor, em um sonho, a definhar pelos cantos. Não vou dizer seu nome, ainda sinto sua ausência.

Você entende? Eu não.

Definhar.


Não há muito a explicar. Sem palavras peregrinas, coloquei tudo no papel.O resto é com você. Ligue os parágrafos, misture com sua memória sobre nosso pai e carimbe um sentido a sua escolha. Não estarei aqui para contradizê-la. Sim, hoje é meu fim, mas não se engane, todos sofremos de uma doença fatal; cedo ou tarde perceberá. Hoje tomo a medicação derradeira para o medo de definhar. Sou incapaz de explicar além disso. Sei que me odeia; matei seu pai. Com a sociedade paguei minha dívida, envelheci na cadeia, mas você irmã, não vê perdão para um homem como eu. É evidente. Não a culpo, mas sei que me culpa.

Enfim, para que não se engane com relação a meu ato, isto nada tem a ver com você. Minhas escolhas foram feitas do alto de meu egoísmo e medo, infantis, sim, conforme suas palavras no velório de nosso pai. Não espero com esta carta expiar nada, ou mesmo plantar lágrimas e remorso, não há pesar em meu fim. Isto é um pedido – enterre-me ao lado de nosso pai.

Adeus.

"Não olho para o céu com esperança, só espero sonhar."  


                                                                       Com carinho, de seu irmão, Fábio Dias.









Créditos das imagens: Quadros de Lourenço Mutarelli presentes em "Quando meu pai se encontrou com o et fazia um dia quente."


ComentaDor


Nascido franzino, mal feito e José. Não cresceu e virou Josézinho, por pressa de vida é hoje chamado de Zézim, pequeno ou não, calha o nome. Já são mais de nove horas da manhã, isso quer dizer atrasado; de novo. Zézim passa do quarto para o banheiro. Tranca a porta. O sujo fica fora ou dentro?  O banheiro é limpo.Olho com ânsia de garimpeiro para o homem. Cavoucando sua pele mole, descubro invernos incontáveis, noves fora, não dá para perceber nada além. A imaginação fértil, na lentidão dum piscar de olhos, relaciona o fato de uma escova de dente rosa sendo jogada com raiva no lixo, com uma desilusão amorosa; a possibilidade do “ela” surge. Ao lixo seguem: batom, creme, vários vidros de perfume. Será que ela se esqueceu? Ou talvez um assassinato? Será que ele a matou? Ele não tem cara de mau, de fato tem cara de nada, mas é pobre, e daí para ser assassino é um pisca.
O homem se olha fundo no espelho. Sabemos que o lado de lá destes objetos é o reino do desespero, no entanto não sabemos se Zézim é um desesperado; ainda. Passa vagarosamente as mãos pelos cabelos: corte curtos, visual padrão. Ele quer o prazer de arrancar um bocado de cabelos, mas ainda o não faz. Arrisco que falta; ainda.
Há quem fale de terremotos pensando em cidades, prédios, pessoas, aos milhares, soterradas em escombros. Mas quantos pequenos terremotos não ocorrem todos os dias? Como este, solitário, lançando o corpo magro de Zézim no gelo do chão do banheiro.
Quando olho de perto o corpo de Zézim, sua pele branquinha parece rir poesia; feliz em ser fantasma de si mesma. Vejo-o jogado em silêncio e me pergunto: seu lirismo é epidérmico ou enxertado?
A parede do banheiro não tem reboque, o teto não tem laje e a porta não tem tinta. Folhas de jornal escondem os tijolos, pintam o ambiente com o cotidiano. O banheiro: tijolos empilhados formam o pequeno quadrado, serve. Zézim fecha-se aqui para fazer coisas de si: deita-se no chão e olha embaixo da privada como quem vê algo, talvez fantasia de Valdisnei; princesa, fada, inseto? Angústia, feito vazio de brinquedo favorito roubado da existência presente. Não sou criança. Se me vêem espernear, o que pensam de mim as gentes crescidas?  Os tijolos-giz são hoje tijolos-casas e sei que algo se perdeu na transformação: resta o mundo sem trevos de quatro folhas. Busco algo ao fazer dessa vida esbarateada no chão brinquedo.


Curioso, tento ver o que ele vê. Aquilo que tenta alcançar com a mão, embaixo da privada. Pega Zézim! Vamos com isso, para que essa lentidão? Tão lerdo, deve ser do tipo que coleciona desaforos em casa; calado.
Pegou!
Eis que não é um inseto. É um bastãozinho, isso mesmo, daqueles que dizem sim ou não para a gravidez. Zézim aperta, torce, morde! Sabe ele que urinam ali? Alguém fez arte naquele bastão, sem permissão do ministério da cultura ou ajuda pública. O homem, agora, volta ao espelho. Objeto que por desatenção, quase me esqueço de mencionar. Única coisa nova do banheiro, recém comprado e instalado, novíssimo; pachorra é a imagem nele, parece plástico derretido, engruvinhado.
Grita Zézim! Chora ou sorri; que seja. Está arrependido homem? Feliz, quebrado, dor de rim ou prisão de ventre? Ah Zézim, que necessidade de saber de ti; por mim. Você calado e eu pensando, borrado. 
Não Zézim, não!
Apagou a luz.
Saiu.
Bateu a porta.
E eu aqui? Fico com a hipótese da vida; dele. Sem saber de vilões e heróis; das dores: horrores ou amores? Rimo para não rir. Para voar; menos. Assassino, pai, corno, desempregado, suicida, liberto? Ê Zézim! Tudo que sei de ti é pouco. Você não está preso as limitações de minha imaginação; só eu. Que sei além do escuro do banheiro sem janela, do cheiro de urina, da umidade íntima, do teste de gravidez abandonado. Suspiro egoísta: que será do homem? Apago também, quieto. Arranhador de superfície: fofoqueiro, comentador, alheia; esse tanto de sofrimento que não custa lágrima.



Créditos: o mérito da foto é do caríssimo Randerson Lobato

Grande campo para o avanço skinhead


Salve traça! 
Hoje posto uns cacos de coisas, alguns meus, outros do Glauco Mattoso, do Lucas Manson, do Drummond, do Raul, e de mais um monte gente que veio antes, que virá depois, ou que nem existirá. 



Grande campo para o avanço skinhead

        Careca tem em toda parte. Onde houver uma cara de boy alienado, de esquerdóide aliciador ou de anarco-traficante para ser pisada, sempre vai ter um coturno de careca, de preferência em grupo. Mas a carecada anda muito dispersa nesse Brasil, principalmente nos grandes centros urbanos, onde, pela lógica deveriam ser mais numerosos & estar mais unidos.


É sempre o mesmo cenário. As pessoas se acomodam, mas o mundo é um lugar cômodo? Para lembrar o burguês deste fato, devemos continuar coturnando pelas noites.
Minhas palavras são vazias, dizem. Alguns carecas pensam que  trai o movimento e me prometem um tratamento que nunca mais esquecerei. A doença tem me mantido na cama, falam até de pneumotórax. O máximo de meu esforço tem sido utilizado para continuar escrevendo nossos informes; pregando o ideário nacionalista. Só careca das antigas vai lembrar dos tempos que saíamos, no meio de nevasca, para colar cartazes nos postes de BH. Tem muito calouro dentro do movimento que precisa tomar coturnada de passado antes de me apontar o dedo!
Sim, existe grande campo para o avanço skinhead, seja em BH ou em Campo grande. Aqui em BH já fiz muito boy beber tietê para ver se toma gosto pela realidade, e é assim que tem de ser. As máfias multinacionais vivem impingindo aeróbicos enlatados aos ouvidos babacas dos boys consumistas & colonizados.
Infelizmente tem nevado a quase um mês, e meu estado pneumônico não me permite tomar as ruas, como já fiz anteriormente. Quando meu pai me leva ao médico, passo ali, em frente a praça Dom Epaminondas; sinto nojo de ver aquele bando de hippie imundo vendendo seus trampinhos. Vai se foder! O que os carecas tem feito que ainda não limparam a região dessa imundície esquerdóide?
          O movimento skinhead é ligação entre Homens que levam o nacionalismo a sério, é coisa de pessoas honradas. "A lealdade é minha honra" - Honra e lealdade princípios fundamentais para um ser humano digno e evoluído. E é por isso que digo: vamos agir carecada! Panfletar as ruas, produzir zines, tocar um som consciente, coturnar pelo Brasil e provar que não viemos aqui a passeio. 
Bem, eu que não vou ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Já dei muita porrada, já apanhei muito pelo movimento e ainda não desisti de lutar, mesmo que agora, somente por meio das palavras. Vida longa aos skins, aqui, hoje... mesmo que “aqui” e “hoje”...mesmo que “isso” seja vazio. Cacos de coisas, que reunidas, são pedaços; o quebrado.
Da laje, lá em cima, ouço o chamado: vou-me, de disco o voador ou de anjo, quem sabe volto.



Atos noturnos ou A fé no príncipe encantado


Salve traça!
Estou preparando novidades para a Estante velha, em breve as traças virtuais poderão desfrutar de páginas amarelas que repousam em estantes físicas.
Quanto ao zine Números, que alguns me questionaram, o conto do número 5 já está pronto, mas como os equipamentos eletrônicos declararam guerra contra minha pessoa, estou sem um computador para editá-lo, mas sai...dia desses. 
Enfim, sem mais enrolação, mantendo a periodicidade semanal; uma brevidade:



Atos noturnos
ou
A fé no príncipe encantado.

I
Meu Deus, me ajude, estou ficando louca! Isso! Isso!

Ele a olha, rindo de dentro de seu rosto; como poderiam ser tão escravos? Mantém-se duro e distante, tenta compreender o que faz ali. Ele sabe o que faz ali. O quarto de hotel barato, a mulher, as noites de sempre; uma vez mais. Ele se vê no espelho, um olhar frio de atrás do espelho lhe responde: por quê?  A pergunta sai mansa, desliza pelo cérebro e agita todo o corpo, frio. Cabelos loiros, talvez bela, ele não lembra do rosto dela. A bunda parece de criança, talvez seja.

Jesus! Não para! Não para! Você está me matando!

Seja dor ou prazer, em momentos inexplicáveis, por que sempre clamamos ao sobrenatural? Jesus, quando fora a última vez que escutou essa palavra? A bunda se retorce cada vez mais, o ritmo dos corpos é frenético, mas ele está descolado de seu próprio corpo, observa de longe aqueles animais ensandecidos, fazendo o que a natureza exige; exige? Demanda de servos impotentes.

Vou gozar! Estou gozando em você! Te molhando todinho.

A pele das nádegas dela se comprime, um tremer rápido marca o ápice. Ela se vira, o abraça forte e o beija com os dentes. Eles se olham diretamente, ele procura algo naquelas duas jabuticabas, vê somente um reflexo, uma estátua de mármore. Ela percebe o membro ainda engajado, inicia então beijos localizados. Ele a olha de cima, novamente. Lembra-se do pai lhe batendo com o cinto de couro, não sente.

II
Sabe amiga, é meio complicado de explicar. Mas sinto que ele me olha como se quisesse me despir das roupas, da pele, de tudo. Sabe, como se ele estivesse pirando, cheio de vontade de descobrir quem eu sou de verdade, o que sou por dentro. Ele não é como os outros, há algo de diferente nele, algo muito especial.

Sim, com certeza amiga, e esse algo se chama paixão. Acho que você está apaixonada...

Você acha? Eu tenho certeza, nunca senti algo assim, algo como uma comunhão. Não sei explicar, só sei que é muito bom...

E quando vão se ver novamente?



III
A noite está quente, ele percebe pelo suor que desce de seu rosto. Um copo de água sem gelo, por favor. O garçom ri, ele fica intrigado, mas não tem porque perguntar a razão do riso. Fumaça de cigarro e música alta, é noite de sexta e todos são felizes; evidentemente. Ao longe, uma bunda rebola ao som de um som qualquer, redonda, demarcando perfeitamente a calça apertada, uma pele artificial que anseia ser retirada; sem pudores. Vai acontecer novamente, ele sabe disso. Repetir o mesmo ato e esperar resultados diferentes, loucura? Ele considera religiosamente o caos, e então se encaminha. Sussurra no ouvido daquela cabeça que sustenta cabelos loiros, ela se vira, encaram-se, ele veste a fantasia de conquistador, exala confiança. Diga-me seu nome.


Silêncio.


Um tapa.
Ela corre para o banheiro. Lágrimas saltam na privada.
Ele volta para o balcão. Um copo de água, gelada por favor. Uma palavra resvala em sua cabeça, desconhece a razão: estereótipo. 





Créditos: Primeira imagem, painel pertencente ao álbum Transubstanciação de Lourenço Mutarelli (Faça o download aqui)
               Segunda imagem, página de Jose Muñoz. 

Uma agenda qualquer


Salve traça! 
Posto um texto marcante hoje, para mim é claro. 
Enfim ilustro o texto, eu que tanto amo a arte de desenhar, com uma imagem  de minha autoria, se é que se pode falar de autoria neste caso. 




Uma agenda qualquer


Veste-se em silêncio, uniforme diário. O jaleco branco, sujo, cala-se em amarelo discreto. Rosto limpo, barba sepultada, adentra a impessoalidade higiênica do hospital. Efervescente em agonias e carnavais, sua mente retorna às sangrias nostálgicas de um tempo charlatão, onde seu velho avô, morto morrido em casa, sorri em despedida ao neto, que indiferente gargalha do fim. Ele se lembra do avô e do brinquedo, e também do trabalho; a medicina que os liga, em ciclo. Em sangue e sono, o dia se passa, feito sonho mal vivido. No bar, desaba com o psicólogo: a cada dia sofro asas, cada vez maiores. Whisky, profissional de renome internacional, desenha em pensamentos: Há asas, mesmo esqueléticas, em cada servente com as costas marcadas pelos sacos de cimento; em cada bit de transações bancárias; em cada empréstimo feito à juros do feto feito na noite, de pinga e paixão, da já imemoriável cidade flutuante. Há asas sim, entre arranha-céus e palafitas, entre nuvens de concreto e de tinta, onde se sorri, da chegada e da partida, da morte e da vida.  Isso! EU também sorrio, aqui as palavras, minhas asas...

- Doutor, com licença, estamos fechando. Gostaria de pedir algo antes de fecharmos a conta? – Diz o garçom, impecável na educação, a tanto custo, decorada.
O jovem doutor, pede então mais um whisky, passando as mãos do garçom uma quantidade de dinheiro que em muito sobrepuja o valor devido. A gorjeta fabrica um sorriso rápido e inesperado.
Uma vez só, as palavras do doutor Silva voltam a correr pelas linhas da agenda, cobrem totalmente o dia, cheio de compromissos, que se seguirá.

...não sobrepujam o brilho de meu crédito, no banco assenta-se minha dignidade. Cuspir em letras as asas sofridas, isto é tudo? Não, nem tudo se resume a corrosão dos sonhos; lágrimas assinarão os versos vindouros, sem identidade, sem existência.
















           Foto da família Silva no sitio em Manaus, Amazonas. Da esquerda para direita: o avô, Roberto, o pai, Beto, e o neto, Robson.


Natural mente


Salve traça!
Um conto mal feito, sem mais!




Natural mente
ou
Benevolência e orgulho -  a publicadade mendigada.


 

Prólogo. 

O problema precisava de uma linguagem precisa, assim o resolveríamos. Joguei notas na mesa, enchi dois copos de vodka e encarei aquela figura oleosa, gorda, passada: Ivan. Virei o que seria um gole do liquido sobre as notas. Não brindamos. Ligeiras, as mãos gordas de Ivan se lançaram para o papel; o dinheiro. Meus olhos comandaram: não se apresse. Acendi um cigarro e lancei o fósforo em chama nas notas. Era, o que gostava de dizer, linguagem precisa: queimar um pouco de meus trinta e cinco anos de obediência. Estou certo e me basto, e havia um grande ponto final em minha afirmação. Ponto gordo e nojento, sinônimo de certeza intelectualóide que desencadeou os eventos da noite. Embevecidos no mais fantasioso clima Clube da Luta zarpamos: à madrugada e além!

No círculo social – Quando o vômito falou.
           
            Vínhamos da bebedeira. Afogados no asfalto, caminhamos até o círculo de pessoas. Não mais que dez pessoas se reuniam. Alguns eu conhecia dos “boa noite” cordialmente cuspidos, por alguns outros mantinha uma certa admiração (a prova da luz do dia, é claro), não mais que dois eu sabia o nome e me aprazia da companhia; vez ou outra. Ivan não conhecia ninguém, mas guardava roupas idealizadas para fantasiar aquelas figuras, vestes de intelectuais, propícias para noites como essas.
            Feitos os rituais de boas vindas, começamos novamente nossos mergulhos no álcool e no presente. A conversa seguia, bambeando nos limites da linguagem ofídica dos falantes. Tais literatos, cujas línguas eram talhadas no ofício da imprecisão, o bem dizer que não diz, desfilavam o som de suas idéias na apoteose do ego. Não se deixem enganar, eu me incluo entre eles, caçava falhas na argumentação alheia e as explorava feito garimpeiro viciado no jogo do desconhecido. Na meia noite, bailávamos todos na cidade das idéias, pé pós pé, das vielas indignas do moribundos analfabetos, pobre povo, às avenidas opulentas dos teatros políticos da capital distante.
            É quando um som levou meus olhos a Ivan. Em sua camisa, pingos de gordura revelavam uma certa farra com a comida, na barba vestígios do que fora para o estômago. O soluço ritmava o abrir e fechar de sua boca, quando de repente, o esbugalhar veloz de seus olhos indicou: vômito. E bem no meio do círculo; social.
            Silêncio. Engoli. Oras, nada mais natural, ninguém deve criticá-lo, gritei em pensamento. Alguns segundos de dúvida foram traídos por risadas esparsas. Estava feito, um pouco de vômito no chão do mundo, ninguém o criticaria.
            Respiravam todos, naturalmente, pela boca, pois o cheiro acre era onipresente. Porém, uma voz se rebelou quanto ao vômito.
            - Isso que acontece quando gente sem responsabilidade bebe...Você é um bandido, onde já se viu comer e beber desse jeito. Tava na cara que ia dar nisso, vomitou, oras que estômago agüentaria? Mas, aqui, quem não precisa agüentar sou eu! – disse o velho professor Silas, alterado.
            - Claro, – parti em defesa – olhem para esta barriga fantasiada de gente – disse, alterado, apontando para a barriga de meu grande amigo - todos viram como ele bebia e comia, Ivan é assim, isso é o natural dele. Segurar o vômito faz mal, deve-se, realmente, soltá-lo. Você está certo Ivan.
            Ivan ouvia a discussão, ainda com um cordão de vômito na boca, atônito, distante. A visão do gordo bêbado e inconseqüente, que vomitara, bandidando a noite de todos, assim como dissera o professor Silas, começava a ganhar adeptos na roda. Eu precisava fazer algo se ainda quisesse salvar a noite.
            - Professor Silas, sabe que o respeito e o admiro, mas você ataca de forma baixa Ivan, mas veja bem, nunca ninguém verbalizou o desconforto causado por sua flatulência gritante! Oras, peidar, assim como vomitar, são rotinas dentro da normalidade, são coisas naturais. Seu comentário foi ofensivo, de uma baixeza que não combina com seu alto nível de intelectual humanista.
            Silas, com um olhar profundo, pegou sua carteira e em linguagem precisa se despediu, jogando dez reais na mesa. – Se fui baixo, desculpem-me, mas bêbado vomitando eu não aturo.
            E assim, sepultou-se a noite. Não passou muito tempo para que todos, cordialmente, inventassem algo e partissem. Eu, de certa forma, sentia-me feliz, vencedor, provara meu ponto. No entanto, o tempo, como sempre, pôs a prova a “naturalidade” do vômito.

No círculo social – Quando o catarro calou.

            Ivan, no dia seguinte, ao saber que tinha sido o personagem principal da noite passada, ria sozinho, confiante em seu papel de protagonista. Passa-se uma semana, e uma vez mais a roda se forma. A exceção de professor Silas, todos presentes. É quando um ruidoso trovão surge, prenúncio do raio, branquíssimo, que saindo da boca de Ivan aderiu ao chão, exatamente no meio do pequeno círculo em que nos organizávamos.
            Meia dúzia de palavras congestionavam minha garganta e minha cabeça. A ânsia veio inesperada ao observar o imenso catarro, criação, natural, de Ivan. Desta vez o silêncio foi soberano, ninguém falou, pois foram calados por meus argumentos noites atrás. Senti falta do professor Silas. Engoli meus pensamentos de outrora a seco, natural...Meus olhos procuraram Ivan, estava alto, confiante, certo da aceitação de seu ato. A visão daquele gigante convidava meu almoço a tomar o ar da cidade, minhas bochechas encheram-se de um gosto azedo. Fechei meus olhos, e com um esforço heróico, engoli aquilo que queria sair. Eu não vomitaria no meio de todos, naturalmente.

         



Crédito da imagem: Painel pertencente ao álbum Eu te amo Lucimar, de Lourenço Mutarelli.
Você pode fazer o Download de Transubstanciação, de Lourenço Mutarelli, aqui. 




Fragmento 36


Salve traça!
A meta de um post por semana não tem funcionado, mas não sofra, é 2012 e todos estão comprando roupas novas para assistir ao fim do mundo.
Hoje, só para não proliferar a ausência de novas postagens, coloco um trecho da coletânea que chamo Fragmentos, mais especificamente o número 36.
Alimente-se traça!



Mãe.

Enquanto as mulheres dormem, elas tomam as ruas. Talvez não sejam sobre elas os poemas de Camões, mas com certeza, é nelas que incide o desejo. Mulheres, homens, poesia e desejo, tudo se repete no tempo, assim como o cigarro aceso que é lançado na garganta do bueiro.




   Acende o cigarro. Olha para o sapato vermelho, salto agulha.
- Como está nosso filho?
- Como sempre: chorando, crescendo, envelhecendo.
- Já aprendeu a dizer alguma palavra?
- Sabe porque vim aqui, não precisa enrolar.
- Só queria saber do meu filho.
- Quer que eu o ensine a dizer puta? Ou talvez algo mais complexo, prostituta? Quem sabe você prefira acompanhante ? Para ele nada disso existe, puta e mãe são a mesma coisa; palavras vazias.
- Sem drama Pedro, você quer dinheiro, tome aqui, é pouco; tudo que tenho. Já te falei para passar mais tarde, tão cedo assim ainda não entrou grana.
- Ainda não entrou a grana e a pica, melhor assim. Prefiro falar com você razoavelmente limpa, fisicamente é claro.
- Certo Pedro, fale o que quiser do alto de sua moralidade de herdeiro de familia falida, mas é a porra que entra em mim que te sustenta.



Crédito da imagem: Luis Royo, painel presente no livro Womem. 

Manhã qualquer.

Salve traça!
Atualizando em dose dupla hoje!
Segue um conto que larguei no limbo de minha gaveta por três anos, na esperança que poeria virasse ouro, pois é, não rolou. Pobre destino para este conto, veio para estante, servir de alimento para traça...

                             ATENÇÃO

Passem os olhos em "Bye Bye Moebius" primeiro, pois este conto conversa diretamente com os quadros de Moebius.




Manhã qualquer



Em uma manhã prematura, feito aborto atrasado, do alto do galho do juazeiro, uma coisa fitava o velho e suas ações, era ELE. Cada gesto matinal da senil criatura era uma nova faceta do enigma que se postava aos olhos daquELE peculiar observador. Com esta manhã, já se somavam três, nas quais os olhos e a mente dELE se viam atadas às ações daquele ancião. O velho, cujo respeito emanava da presença, trazia muitos anos no rosto e um olhar calado pela solidão.
O dia, espreguiçando-se, mal surgia e o velho já estava de pé. Copo de água na mão e chapéu para abraçar a careca, tendo por assento o chão, o velho aguardava na varanda do casebre onde mora, enquanto o sol não se levantasse acima do horizonte tão pouco ele o faria. Sua cabeça dançava, céu chão, céu chão, em um bailado que um observador menos atento poderia interpretar como cochilos, no entanto, ELE sabia que aqueles olhos secos pelo tempo do ancião acariciavam o cemitério, tal qual os da morte encaram um campo de batalha em flor.
O cemitério, cujo olhar do velho monopolizava, encontrava-se logo à frente do casebre. Enorme, ELE já o vira do alto, ao passar voando três dias atrás. Estendia-se por quilômetros, túmulo após túmulo, mármore, ardósia, concreto, azulejo, madeira, terra e ossos. Se fossem compilados os epitáfios daquela multidão de lápides, volumes nada modestos preencheriam qualquer biblioteca. Algo notavelmente, vivo, enquanto criação, e morto enquanto moldura.
A bizarra cena se abria novamente aos olhos dELE.
Pesado, o Sol brilhava, imenso, sobre aquela figura de idade avançada. O ancião se levantou, tomou uma vassoura nas mãos e caminhou pela breve estrada que ligava sua casa até o cemitério, um portão demarcava os limites entre aqueles dois terrenos. Assim como nas manhãs passadas, do bolso uma chave foi retirada e assim, aberto o portão; o limite entre o cemitério e a estrada ficava mais tênue. Começava, uma vez mais, o ritual que demandaria toda a manhã, vassourada a vassourada, a estrada era limpa.
Tempos em tempos, seja a idade ou a memória, cobrava do velho uma pausa, gasta, enigmaticamente, em longa contemplação do cemitério. Cabeça recostada no cabo da vassoura, o ancião percorria com os olhos aquela necrópole que tomava o horizonte. ELE, ressaltado com aqueles atos, mordia a língua, ansiando por respostas. Basta!, disse antes de voar rumo a figura senil.
- Diga-me bom senhor, o que contemplas? A quais paisagens da memória este fúnebre horizonte lhe transporta? – Disse ELE.
- Não olho, apenas varro.
- Há verdade em suas palavras, mas ainda há algo além. Observo-o por três dias repetindo os mesmos atos, conheço seus hábitos, somente não os compreendo, diga-me e cale minhas dúvidas, o que se esconde sob este varrer?
- Sei quem você é, por que vem perturbar um velho ocupado demais com seus próprios demônios? Fará de mim a piada do dia?
- Talvez eu saiba muito, talvez não saiba nada, talvez eu seja a dúvida, a própria questão que lhe aflige. Diga-me, dói manter o silêncio aí dentro? O quanto tem se martirizado para manter a voz interior calada? Deixe que eu seja o mar para este rio que há tanto se encontra represado. Sei que suas ações escondem algo.
- Não tenho como escapar de ti, vil. Não pense que de joelhos sussurrarei em prantos minha vergonha.
- Esbraveje então, que seja! Toma-me pela pessoa errada, mas isso não cala minha dúvida. Não hesite, fale!
- Este cemitério é a obra de minha vida, lá sepultei os outros “eu”, existências enterradas durante minha existência. Sonhos matutinos, idealismos juvenis, amores de noites de verão, outros de verões inteiros, enfim, naquele solo sagrado jazem esqueletos de coisas de tempos idos, vestígios do que passou, tão apenas.
- Sim! Belo! É deveras um criador, mas acalente uma última dúvida, por que varrer a estrada?
- Mantenho o caminho limpo, pois sempre há um novo eu a se sepultar, uma nova lápide a se construir. – Respondeu o velho, com uma voz contida, quase interna.
- Velho ancião, tenho respeito por sua pessoa, mas por mais que tente mentir para mim, nunca será capaz de mentir para si próprio. Vejo na secura de teus olhos que somente a chuva os tem umedecido. Faz-te falta o que nunca teve, não? Enterra o passado, sim, mas nunca a saudade. Você sabe o porquê de abrir, todas as manhãs o portão, a razão atrás de cada movimento da vassoura; nós sabemos.
- Cada uma daquelas lápides é um diamante para mim, preciosas em memórias, sim, mas são tributos ao passado, são coisas mortas.
- Não está sendo sincero, os que fazem do cultivo de sonhos a substância da vida sabem a fragilidade dos diamantes. Você cultiva sonhos, o maior deles, o grande retorno, talvez por culpa, pois sabe que é assassino e coveiro de todos os que se foram, e agora, em fé, aguarda que o passado retorne infante, pulando e sorrindo, por esta estrada que com tanto esmero limpa.
- O coro do passado nunca se cala, tem razão, ele é o enigma do presente. O tempo dissolveu a diferença entre assassino e coveiro, chamo-me; sobrevivente.
- Pois eu o chamo; crente! Não somos tão diferentes ancião, no entanto, enquanto você reza pela vida, eu vivo. Meu cemitério? O mundo. O seu; si próprio.
- Tolo, não encontrará em mim terra fértil, pois seu discurso é estéril.
- Já chega velho tolo! Anuncia-se o momento da partida, cheguei com a dúvida e agora a deixo com você. – Tais foram as palavras dELE enquanto, lançava asas ao ar. Ainda nas proximidades, virou-se e com um sorriso burocrático afirmou.- Lembre-se, eu semeio a vida, e ela brota em qualquer cemitério.




Era mais uma manhã prematura, feito aborto atrasado, e em tons de devaneio, um jovem ancião se levantava. Nunca se soube para quê...
Assim têm sido. 




Créditos da imagem: Quadro de Lourenço Mutarelli presente em "Quando meu pai se encontrou com o et fazia um dia quente."

Bye Bye Moebius

Salve traça!
Milênios se passaram desde a última postagem (pouco mais de um mês) e aqui estamos de volta. Mas por quê? Oras, a estante mudou de lugar, de Taubaté foi para Belo Horizonte. Tentarei restabelecer a frequência de um post por semana, veremos...
Pois então, Jean Giraud, ou Moebius, francês setuagenário, morreu. Nada mais normal, é algo a que todos que estão vivos estão sujeitos, particularmente, sentirei falta...
Não vou ficar descrevendo qualidades, segue um apanhado que fiz: alguns quadros pertencentes a história entitulada "O pau doido".


























Caso queira saber mais sobre Moebius, tem este post aqui, do Pipoca e Nanquim e também também o site oficial do autor.
Também ilustrei "Camada externa do ser; pele", com uns quadros de Moebius


 Crédito das imagens: Coleção Moebius, Absoluten Caulfeutrail e Outras histórias.








Epitáfio da verdade

Salve traça! 
Hoje um velhinho desiludido interpreta o drama de sua vida somente para homenagear o poeta Alexandre Malosti.

 
Epitáfio da verdade.

Foram anos para se erigir a verdade. E isso tem a ver com abrir e fechar dos olhos; a verdade não é sombra. A arquitetura da certeza é uma empresa a que me dediquei por anos. Hoje, do alto de minhas idéias torturadas, vejo que séculos ruem em segundos. Há sorriso que valha? Subi nas alturas de minha experiência, coroando cada segundo, cada ano, cada tombo e cada fracasso como um aprendizado; cadáveres empilhados, degraus de uma subida, lenta e incessante.
Manhãs e manhãs, noites e noites, e oceanos que não se tornaram mar. Minha vida passou, conquistei tudo para perceber que conquista é sorriso de máscara alheia.
A verdade ruiu. Seriam erros na fundação? Erro? Talvez o erro seja crer que no erro há semente do acerto, que na repetição há gérmen de perfeição, que a velhice seja um trono de sabedoria.
Não são os anos passados as jóias de minha coroa opulenta? Não são os tijolos de minha parede diplomas que me certificam? Cala! Cala que há opiniões enterradas em sua pobreza.
Divago em letras e palavras...Como rebuscar este epitáfio?
Um túmulo de mármore calado: isso É a verdade.






Créditos: Painel  da história, Estampa Forjada, presente na coletânea Mundo pet, de Lourenço Muttareli.



Poesia ?

Salve traça!
Você que gosta de saborear letra e bit, página branquinha ou de jornal, solte sua gula e dê uma passada de língua nesta poesia(?).



?
Língua mão,
gente maneta.
O que corpo toca
não mente.
Sente e fala.

Língua mala
Pesada, chuvosa.
Lágrimas dolorosas
de labor passado.

Língua pombo
Voa gorda.
Feia e sem canto
Sob seus pés
Corre a luz.

Ó língua...
O visível,
o nomeável,
o palpável impalpável.
“EL” prisión 
 
 








Língua
Alheia
Baldia
Vadia!
Em seus pentelhos,
  a poesia.






Créditos, imagem pertecente a obra Hybris(Download) , uma pequena narrativa gráfica em oito páginas. PS: Desconheço o autor...mas a história é muito boa! Recomendo!

Representação ou Apresentação?

Salve traça!


Algo diferente; hoje posto uma pequena história em quadrinhos de Gabriel Bá e Fábio Moon, pertecente ao álbum "Crítica". A obra trata da questão do espaço da arte em nossa sociedade, a relação com o público, as exposições, as linguagens criativas, dentre outras coisas. Esta questão vem sendo debatida por um grupo de poetas do Vale do Paraíba desde o ano passado, e após alguns encontros, mesas-redondas, e uma série de outros eventos a única certeza que permanece é incerta. Este post é uma homenagem  e uma incitação ao debate para a Confraria do Coreto. 








Números 4

Salve traça!

Hoje publico Números 4, A Arma (Download aqui.), só que desta vez com uma proposta diferente!
Dentro do Zine, após o conto, há uma espaço em branco, local destinado a intromissão do leitor, ou seja, uma continuação da história. Publicarei neste post todas as continuações que forem enviadas para meu ze-mail. Resumindo, as traças vão poder meter o bedelho à vontade! Aqueles que receberem o Zine impresso também ganharão uma caneta...
Enfim, aproveitem a história escrita, na qual recebi ajuda de Anthony Newman nos momentos concepcionais.

Atualizado em: 24/01/2012 - Inserida a colaboração de Teresa Cristina Bendini - Leia abaixo.

A Arma 




    - A culpa é deste povinho brasileiro, só vive para assistir BBB e futebol.
    - Silas, já estou cansado de ouvir você falar, e falar, e falar. A vida não é uma merda, está uma merda, e isto tem se arrastado por tanto tempo. Estamos aqui, virando copo após copo, acreditando que somos, ou temos, algo de diferente deste povinho brasileiro. Mas sabe a verdade? Somos brasileiros, e pior que o povinho, estudamos e vimos um probleminha ou outro na maneira que as coisas se apresentam, mas e daí? Nós brindamos e filosofamos gastando saliva e dinheiro, fingindo e calando.
    - Olha aí quem fala, o que você tem feito em seu emprego de bancário?
    - E você? Realmente acredita que como professor está fazendo algo para melhorar a nossa realidade?



   

Crédito: Charge de Rafael Sica, presente no extraordinário, Ordinário.

     


                                                      A Arma
                                                                       por Teresa Cristina Bendini

     
      Depois de ter narrado a história ao editor do jornal Zero Hora, Orfeu assinou imediatamente o contrato que o faria cronista daquele jornal por cinco anos.  Isso representava, sem dúvida, uma vitória na vida daquele jovem escritor. Ele tinha apenas 25 anos, sua caneta e nada mais. A danada nunca havia lhe faltado com a letra. Era só apontar em um papel em branco e pronto. Ela disparava a escrever. E sempre algo que lhe valesse alguns trocados. Quando chegou em casa depois daquele dia exaustivo, tratou de guardá-la no cofre da sala. Antes disso, ela gritou:
    -Calma!
    -Eu quero beber um pouco de tinta, não vê que estou acabada? Então Orfeu beijou-a, exercendo sua gratidão. Levando-a até a escrivaninha alimentou-a de tinta fresca.
    -Acabada porquê? Disse ele sorrindo. Acabamos de ganhar um contrato de cinco anos com o jornal mais importante do RG.
    -Matei um homem, sou a arma do crime! Estou apavorada e se eles me prenderem?
    -Prenderem? Como assim?
    -Estou brincando. Jamais eles acreditariam nessa história. Ah meu Deus, porque que eu vivo escrevendo histórias?
Estou exausta!!!
     -Exausta ou exausto, Moacyr? Pare de reclamar, foi você que me deu essa missão. Seu escritor doido!   Porque quis renascer numa caneta?
     -Numa caneta não, na minha caneta!
     -Sim, eles esqueceram de enterrá-la com você. No dia do seu velório tentei achá-la em sua casa. Procurei na escrivaninha, na estante, nos livros e nada. Você tinha sumido! Não do caixão é claro, pois já estava na caneta. Escondeu-se no seu livro mais ridículo. “A mulher que escreveu a Bíblia." e dentro do meu barraco!!!!
Eu, um autodidata! Seu fã desde os quinze anos! Afinal... porque me escolheu?
Eu e eu.

     -Você sabe o que eu penso dos leitores? Esses caras vão mudar o mundo. Karl Marx, Freud, Spinoza, Einstein, Arendt, Lispector, Spielberg. Sem leitura, o que seria desses caras?
     -Epa!!!!! Auto lá! Pare de citar judeus. Que mania é essa de puxar a sardinha pro seu lado?
     -Não é isso! Estou falando de você, Orfeu.
     -Não me compare com Judeus. Sou preto e favelado.
     -Sim. Mas nem por isso deixou de ler um dia sequer os meus livros, mesmo sendo um favelado.
     -Moacyr, você está me cansando. Estou morando temporariamente em sua casa, mas pretendo sair daqui assim que fique conhecido e comece a ganhar dinheiro. Você se lembra do nosso ACORDO?
     -Sim, lógico. Você fica comigo até eu te fazer famoso, daí por diante a alma inserida na caneta é inteiramente sua!
    -Inserida em “outra caneta”, diga-se de passagem, porque essa eu mesmo tratarei de devolver pro bolso do seu presunto!
    -Não antes do meu Best-seller!
    -Do meu, ora essa!
    -Sim, você merece. É um ótimo leitor...e um candidato razoável a escritor.
    -Não acredito que isso esteja acontecendo! Uma caneta que além de falar... ofende!



Ateu


Salve traça!
Enfim os primeiros bits velhos deste ano de 2012. 
Dedico esta poesia a pessoa que lançou a questão inspiradora deste amontoado de letras; a confrade, Teresa Cristina Bendini. 



Ateu.

Orar deuses enlapidados?
Fumar sentimentos impressos?
Ó Poesia!
Não lhe cai bem o altar,
o sussurro débil,
o  respeito enfermo.
O grito, nunca virá?
Hosana nas alturas?

Calado acalento,
Da nobreza culta.
Ó Poesia!
Não lhe cai bem os láureos,
o cuspido pedigree,
a evolução teleológica.
A ânsia, agora veio?
Tola idiossincrasia?

Chega!
O amanhã vem longe
Hoje?
Cedo demais para morrer.
Poluído panteão,
aguarde!
Há nos bolsos sementes,
da adoração. 





Créditos: Painel presente em Transubstanciação(Download aqui) de  Lourenço Mutarelli.