Menina mentida.
II
“Ouço o cair do tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair.”
O mar, a manhã, a brisa.
A praia vazia, a velha, a cadeira de rodas, o cheiro de urina, a nostalgia de futuro em broto seco.
Cabelos loiros encaracolados, olhos verdes, cheirosa,
exalando juventude; uma bonequinha caminhando trôpega em direção à velha. – Olha vovó, ganhei da mamãe. – Dizia a
menina, enquanto colocava uma boneca no colo da idosa. A anciã, do alto de sua
cadeira de rodas, lentamente moveu seu rosto, com os olhos fez um trajeto
trabalhoso, da garota à boneca, da boneca à garota; dois objetos, porém um
estava no pico da pilha de lixo.
O mover do braço da velha era surreal, seu corpo sofria, tal qual uma estátua, os infortúnios do movimento. Rangia dores e reumatismos que as cordas vocais não cantavam. A mão, pesada, tombou desajeitada sobre o rosto da boneca, o polegar exatamente sobre o olho esquerdo.
O presente da garota, maré inesperada, trouxe o passado em
ondas, lançou conchas à praia. O peso de anos se esvaí no vagar marítimo. A velha
imóvel, volta a peregrinar sobre pilhas de lixo, buscava a salvação: comida ou algo
que se possa vender. De olhos fechados ela respira fundo o cheiro do lixão, se infla
em juventude.
“Um dia você ainda vai ser alguém, deus te deu inteligência,
um dom.”, que no caso era a capacidade de ler, de compreender um autógrafo em
uma camiseta da seleção, de saber o valor de uma primeira edição de Fernando
Pessoa, de reconhecer uma carta de Mário de Andrade para Manuel Bandeira,
coisas que brilhavam ouro para olhos interessados, brilho suficiente para pagar
a vida, por meses. Chamavam-na Maria Ledura, pois era a única capaz de
encontrar estas preciosidades abandonadas. Ao contrário da maioria das pessoas
que trabalhavam ali no lixão, ela era estudada, faculdade mesmo. A boataria não
parava por aí: matou a família; foi estuprada pelo pai e fugiu com a filha;
freira que vivia em penitência; louca varrida.
Maria Ledura tinha como tesouro maior o silêncio. Mesmo no
dia que encontrou a criança em meio ao lixo, ainda viva, sua boca nada soltou
além de breve suspiro, frio, logo seguido pela sombra fugaz de um sorriso; só.
Os velhos diários de observação, ela os revê: a letra
perfeita, desenhada lentamente sobre o papel, o total controle sobre os
movimentos dos dedos, da mão, do corpo. Dia após dia as reflexões a respeito do
lixo, da sociedade, da criança que crescia em seu barraco. Todo o passado é
agora, de novo.
3, 250 Kg. 32 centímetros.
Alimentação: vitaminas e leite. Continua a crescer. Chora menos. Vez ou outra
retiro a bandagem de sua boca. A ferida do local onde se encontrava o mamilo
esquerdo esta completamente cicatrizada.
Devido a uma falha na imobilização do corpo, ao tentar
retirar a pálpebra comprometi seu olho. Precipitadamente, na excitação do momento, retirei completamente o olho esquerdo. Não sabendo como proceder costurei o
orifício. Agora, arrependida, temo perder a criança. Passarei a noite
procurando no guia de primeiros socorros algo que ajude a garantir a
sobrevivência da menina.
Nunca vi algo tão belo quanto este olho. Segurá-lo gera
excitação, sexual, mas ainda além. É agradável ao paladar, ao tato, mesmo seu
odor é apaixonante.
Hoje, pela manhã, notei que os movimentos da criança estão
lentos, temo sua morte. Preciso mantê-la viva. O descarte não é aceitável.
- Mãe! Mãe! Está assustando a Maria das Graças. – Disse a
mulher puxando da mão da velha a boneca da criança. Sem perceber, a anciã
pressionava com o polegar o olho esquerdo da boneca.
Vagamente a velha transitou com seu olhar entre a criança e
a mulher, entre o passado e o presente. Contemplou os rostos desapontados de
seus medos: a velhice não lhe trouxera respostas, não todas. Existira, e mesmo
ao espelho diria isso; tivesse ainda voz.
- Vovó precisa de ar. Maria das Graças vamos passear na
praia com ela?
- Tudo bem mamãe, mas posso levar minha filhinha?
- Pode sim, só tome cuidado, não vá perdê-la, como fez
ontem. Desta vez não compro outra.
- Vou tomar muuuuiiiiittttooooo cuidado mamãe. – Disse a menina, já correndo pela praia, bem
a frente de sua mãe e de sua vó, ambas ainda
na calçada.
E assim elas percorriam a orla, vez ou outra enfeitando o tédio, Madalena falava com a velha, porém sem desviar a atenção da filha, Maria das Graças, correndo pela praia. Caminhava empurrando a cadeira de rodas da
velha, sem deixar de ofertar um bom dia sorrido a todos com que cruzava. A
manhã florescia em tons díspares, algo como, por falta de outra palavra, magia,
pairava no ar.
Vê-se silêncio.
Crédito: Imagens pertencentes ao álbum Desgraçados, de Lourenço Mutarelli.
Você pode fazer o Download de Transubstanciação, de Lourenço Mutarelli, aqui.
2 comentários:
olá...seu blogue e muito interessante...bem pesado...gostei bastante,bem minha cara, só queria te perguntar de onde são estas imagens?
Salve Dennilson, as imagens são do álbum Desgraçados, de Lourenço Mutarelli. Ao término do post eu informei. Caso se interesse pelo autor pode dar uma olhada nos Downloads, onde tem um álbum disponível.
Um abraço.
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