Limites e limitadores - Parte I

Salve traça!
O texto que publico hoje é resultado de uma reflexão que tem me levado a repensar desde este blog até o  próprio ato de escrever ficção. Uma série de questões tem pipocado em minha cabeça e batê-la repetidamente no teclado não tem resolvido.

Quanto ao texto, muitos não o lerão ou desistirão, é compreensível, pois ele é recheado de palavras / termos / conceitos que criei ao misturar um pouquinho de tudo, mas embora a linguagem seja, de certa forma restritiva, a temática abordada é universal. Quem ler verá...



RE012330 26 – UA 0213DR-02.

Limites e limitadores.  

Eu tinha dez anos quando meu pai disse: é a hora. Foi minha primeira e última visita a um prostíbulo. O velho tinha os implantes básicos de sua época, mas não havia tecnologia que compensasse sua mentalidade retrógrada.  Em sua concepção, um bom pedaço de cu era mais do que o suficiente para satisfazer os desejos sexuais de seu filho em desenvolvimento; velho tolo. Ele dizia: o primeiro cu é sempre inesquecível. Ele estava certo, embora eu ainda me recorde daquela noite, não há prazer na recordação. Isso foi há muito tempo atrás.

Com os anos adquiri maturidade física e iniciei minhas pesquisas no campo da programação sexolográfica, trabalhando especificamente com poesia sexo-visual. A estas alturas, os 202 anos de compartilhamento de processamento a que meu pai se submetera haviam gerado uma pequena fortuna em créditos. O fim de sua existência, e a consequente herança, tornaram-se então  um pré-requisito para minha liberdade artística. Matei.  Seguiram-se anos de produção insana, criava sem parar, porém somente para consumo próprio. Não queria expor minha consciência artística ao aprisionamento do ego, consequência lógica do convívio com críticas externas. Isolado em mim, não tardou para que minha autocrítica, ferrenha, rotulasse todo meu trabalho como uma variação do conceito milenar da masturbação.

Eis a questão, por mais que tentasse nunca fui capaz de fugir de mim mesmo. Explico: minha poesia nunca alcançou o que eu chamava, inocentemente, de essência do ser. Tal conceito de essência, eu arriscava a definir, como o âmago pelo qual toda a arte se conectava, espécie de ponto onde se concentrava tudo o que fora adjetivado de Humano; onde o EU comungava com o OUTRO; momento em que o par binário de nossa existência desaparecia brevemente por meio de um jogo contínuo de atração e repulsa. Empiricamente eu era capaz de constatar minhas falhas: no momento derradeiro, no instante do gozo, no olho de minhas criações nunca vi nada além de que meu reflexo. Gritos ou murmúrios, carinhos ou arranhões, nada transcendia o espelho de mim mesmo. Sim, minha arte era masturbação.

Foi quando iniciei minhas pesquisas na área da programação genética; a proibida biopoesia sexual. Eu era um criminoso, mas toda arte não o é? Dediquei-me nos anos seguintes aos mais variados movimentos artísticos, do essencialismo estrutural a exotecnia. Embrenhei-me na velha querela entre os servo-naturais e os subimaginários nucleicos.  Cheguei até mesmo a realizar experimentações com células extraterrestres de origem desconhecida. Eu estava disposto a romper com todas as convenções. Aquilo que fora batizado por Hermes Peirce, 600 anos atrás, de biopoesia sexual era uma definição que não mais cabia a meus trabalhos. Minhas criações alcançaram tal grau de ruptura que não mais fazia sentido analisá-las por meio de instrumentos críticos por elas tornados arcaicos. No entanto, minha maldição prosseguia, minhas obras nasciam com a marca, maldita, do reflexo. Nunca foram nada além que uma interpretação, uma representação de mim mesmo exteriorizada, afinal, embora não fosse capaz de programar as respostas sensoriais de minhas criações, todas as ligações, todos os caminhos possíveis, eram projeto meu. E, uma vez mais, a cada incineração, não presenciava nada além que o fim de um pedaço de mim. 

Gozei em orifícios de seres programados geneticamente para me dar prazer, anatomicamente projetados para o meu deleite corporal, simétricos a cada um de meus anseios físicos.  Fosforescências epilético-orgásmicas, eis minha série preferida de biopoesias sexuais. Criei? Sim. Diverti-me? Sim, mas embora meu corpo se calasse, minha mente gritava. Meu flagelo se perpetuava: a incapacidade de criar algo alheio à mim mesmo.


O meu vício levara-me a torrar em vinte anos todos os créditos deixados por meu pai, desatento e cada vez mais imerso em minha arte, deixei que meu ateliê fosse descoberto. Fui preso. Não me arrependo, foram anos de aprendizagem. Uma vez preso, neguei-me ao compartilhamento de processamento, visando assim proteger minhas descobertas. Fato este que me deixava com apenas uma opção: 1000 anos de exploração espacial. Meu corpo foi então dissolvido e minha consciência transferida para um VEE de última geração. VEE, na língua simples, nada mais é que um veículo de exploração estelar. Em média, estes veículos medem não mais que três centímetros. São os braços e mãos da Corporação para a busca de planetas, seja para exploração ou colonização. Devido às grandes distâncias espaciais e temporais envolvidas neste tipo de exploração, medidas cujo corpo humano não seria capaz de suportar, é empregado somente o software; a consciência. No entanto, a consciência não tem livre controle sobre a operação do VEE, existem barreiras, é a programação de fábrica, ou firmware do VEE que inibe o total controle do veículo, evitando assim que  o sujeito simplesmente fugisse. Não era o suficiente. Para alguém com meu nível de conhecimento em programação não foi necessário mais do que cinco anos para compreender e quebrar os algoritmos de defesa esdrúxulos do firmware do VEE em que eu estava equipado.

Uma vez livre do controle da Corporação, transferi minha consciência por meio de uma rede de satélites piratas para colônia Plato-C10. Lá, trabalhei hackeando para os Irmãos sem face por 133 anos. Em troca de meus serviços eles me permitiam utilizar sua fazenda de processamento compartilhado, que em média contava com mais de mil mentes conectadas. Durante todo o tempo que tinha livre trabalhei em meu projeto derradeiro, até então. Estava desenvolvendo meu novo corpo. Trabalhei sistematicamente desde a mínima ligação nuclear até as mais complexas interações gênicas. Projetei desde a mais ínfima conexão sensória possível até os mais intricados processos hormonais. A complexidade era tamanha, que uma mínima alteração gênica, uma interação sequer que não tivesse sido prevista, colocaria toda a criação a perder. Finalizado o projeto transferi-me para Narkajid, famosa estação espacial além do anel exterior, lar de C. S. Burroughs, um dos maiores biopoetas sexuais do universo.

Burroughs, anos atrás, fora forçado por sua genialidade a se desvencilhar dos limites éticos da Corporação, fugindo então para além dos anéis externos. Ele foi um dos fundadores da escola bioexpressionista, e, nos últimos séculos se dedicara a, já lendária, escola dadaístico-hormonal.

Embora não compartilhando das escolhas artísticas de Burroughs, sua estação era o ambiente adequado para mim. Narkajid era o único local no universo conhecido onde eu poderia compreender, e experimentar, a poesia sexual autogerativa, ou BOOM, como era chamada pelos degenerados das colônias exteriores. Nesta época eu acreditava que este conhecimento seria a chave para a busca que vinha empreendendo desde minha adolescência. Em Narkajid, tive meu corpo sintetizado pelo próprio Burroughs. O processo de impressão do corpo não poderia ser descrito com nenhuma palavra a não ser poesia. Fato previsível, afinal o corpo fora criado para esse fim. Terminada a obra transportei minha consciência para o novo dispositivo sensorial.  Estava pronto para as experiências com o BOOM. Avistava no horizonte a possibilidade, há anos aguardada, do contato consciente com, a por mim chamada, essência do ser: a comunhão. Algo que minhas pesquisas arqueológicas e históricas associaram a um conceito capaz de ser rastreado nas mais variadas culturas proto-tecnológicas. Um conceito, que embora naturalmente fluído e de difícil delimitação, encontrei expresso estético e filosoficamente em todas as línguas documentadas, sem exceção, do período pré-Calehiano: kärlek, lieben, love,  amore. 


Continua.






Crédito da imagem: representação de Gally, do mangá GUNNM de Yukito Kishiro.  - Autor da imagem desconhecido. 

3 comments:

Leandro Monteiro said...

Junte conteúdo psicanalítica, análise psicológica tipo clariciana, literatura futurista (1984, Admirável Mundo, Guia do Mochileiro das Galáxias e Manga sci-fi e, talvez, mecha)e explosão de erotismo remetendo, um pouco, a Sade, teremos esse conto confessional, abstrato e ao mesmo tempo, com toques de "sujeira pornográfica". Baita conto, hein, Rafael Martins.

Estante Velha said...

Salve Leandro!

Rapaz vc me assusta! Você é minha definição de leitor ideal. Pescou grande parte das influências perfeitamente. O Guia dos mochileiros ainda não li, mas pelo que me disseram é bem cômico, então acho que tem mais de Admirável Mundo Novo e de alguns animes tais como Ghost in the shell e o próprio Gunnm.

Mas enfim, acho que Sade me parecia o mais escondidinho nesta história toda, nem eu tinha percebido, mas vc pescou.

Quanto à sujeira, acho que é um tanto de Bukowski, Kerouac e Burrroughs.

Seu comentário me chamou atenção para o intrigante fato de que, quando escrevemos, acabamos por conjugar leituras mil e, muitas vezes, nem percebemos. O escrever como uma constante visão crítica do passado retrabalhada pela imaginação...comecei a viajar.

Um abraço e obrigado pelo comentário.


Wagner de Souza said...

O Leandro desmotivou qualquer comentário mais analítico de minha parte, por isso limito-me a dizer: MUITO BOM!
Parabéns, estou ansioso pela segunda parte.